sábado, julho 15, 2006

Etapa do Tour 2006

A Etapa do Tour 2006 pode resumir-se numa palavra: inesquecível. Ambiente digno da Volta à França, paisagens de cortar a respiração no coração dos Alpes, mais de 7500 cicloturistas no mesmo percurso dos profissionais, montanhas míticas. Mas também muito suor, sofrimento e a sensação de conquistar o céu ou o mais sublime dos desafios: a superação individual. A verdadeira essência do ciclismo, está claro! Eis a crónica:
O dia 10 de Julho amanheceu fresco, com céu limpo e a soprar vento moderado que deixava antever mais dificuldades que o que o percurso impunha: a conquista homérica do Col d’Izoard (categoria especial), Col du Lautaret (2ª cat.) e do ainda mais célebre Alpe d’Huez (cat. especial), numa etapa de 191,1 km.
Depois do pequeno-almoço reforçado, deixámos a base – num parque de campismo dos arredores da cidade de Gap –, a toda a velocidade, descendo os primeiros três quilómetros do Col de Bayard, sobranceiro à cidade. Gap ergue-se num vale lindíssimo, entre imponentes montanhas da cordilheira alpina.
Eu, o Nuno e o Jerónimo chegámos à zona de partida sem ponta de stress: afinal restava-nos aguardar que muitos mais de 7000 partissem antes de darmos as primeiras pedaladas. Atrás de nós, provavelmente não estariam 100…
Às 7h30 em ponto deu-se o «tiro» de partida mas só mais de 20 minutos depois cruzámos a linha, percorrendo mais de meio quilómetro a empurrar a bicicleta ao pé-coxinho – situação que já é habitual, dado o número elevado do nosso dorsal.
De qualquer modo, ao contrário de outras edições, não houve grandes engarrafamentos nos primeiros quilómetros, graças à boa largura da estrada e à planura do relevo, que permitiu desde logo rolar a boa velocidade. Assim durante os primeiros 55 km passaram mais depressa do que eu esperava – e temia, pois é sempre uma fase delicada em que gasta muitas energias a saltar de grupo em grupo. Alguns topos fizeram-se no abrigo de grandes pelotões que sempre se formam.
Na véspera, em jeito de brincadeira, dissera aos meus companheiros que queria que chegássemos ao sopé do Izoard com 40 km/h de média. Não foi mau: 34 km/h. Isto a «olhómetro», porque o meu conta-quilómetros não funcionava desde a partida. Pelo menos, não foi o pulsómetro, como nos Lagos! Mas rapidamente fiquei a saber o motivo do problema e a forma simples de o resolver, quando, no primeiro abastecimento, antes de iniciar a longa subida do Izoard, ficámos retidos devido a um aglomerado – lapso pouco comum na (quase sempre) irrepreensível organização da prova. Então ao inspeccionar o sensor e a roda reparei que, na véspera, os mecânicos da Mavic (imagine-se!) tinham instalado a chaveta ao contrário (o cubo da roda tinha os rolamentos gripados e tiveram de ser trocados). Assim, quando montei a roda antes da partida, obviamente o imãn ficou… do avesso. Logo... off!
Voltámos a pedalar mais de 7 minutos depois da paragem forçada, já com o aparato tecnológico em pleno funcionamento, mas com a «Etapa de Ouro» (que se atribuía, no meu escalão de idade, a quem fizesse menos de 7h00 de prova) definitivamente hipotecada. O objectivo não era fácil de alcançar e confesso que nunca acreditei atingi-lo, mas, no final, mesmo tendo ficado a mais de 25 minutos, senti que estive mais perto que nunca de o alcançar. As razões para este meu vaticínio surgiram, principalmente, a partir do momento da prova que descreverei a seguir: a montanha.
Chegava o mítico Col d’Izoard é fantástico. Longo e extremamente selectivo. Começa a subir gradualmente por entre uma estrada que atravessa uma estreita garganta rasgada por um rio tumultuoso e que culmina num cruzamento à esquerda, onde se empinam as primeiras rampas verdadeiramente duras: eis a subida propriamente dita (14,5 km a 7%).



Desde logo, pedaleira pequena e o ritmo adequado. Confirmaram-se as boas sensações que trazia desde a partida: pernas leves, cadência elevada e facilidade em seguir as melhores rodas – como a de um sul-africano que serviu de lebre até à esfusiante aldeia de Arvieux, tipicamente alpina, onde a inclinação oscila entre 9 e 10%. Aqui o Nuno cedeu. O Jerónimo já o tinha feito – atempadamente e bem – pouco depois do cruzamento de entrada na subida. Creio que o Nuno insistiu e acabou por pagar demasiado caro o esforço. A partir daqui, ainda a meio caminho do Col d’Izoard, fiquei «sozinho» entre milhares, mas com a encorajadora sensação que as forças tão cedo não me abandonariam.



A parte mais difícil da subida passou-se bem e o melhor estava reservado para a parte final: após 11 km de ascensão entra-se um cenário arrebatador, do tipo lunar, chamado Casse Déserte. De um lado, escarpas e picos gelados; do outro, aridez rochosa, num contraste quase indescritível. As lápides de Coppi e Bobet (à esquerda) fazem-nos entrar na lenda do Tour.
Faltam, então, apenas 2 km de uma estrada que não pára de serpentear até ao cume da montanha. Lá em cima, a 2360 m de altitude, uma das fotógrafas oficiais da prova agradece o meu «danceuse» (levantar estiloso do selim) especialmente para o boneco. A emoção do momento deu para tudo!



A primeira contagem de montanha de categoria especial estava ultrapassada (fiz uma média de 13 km/h em 14,5 km). Seguiu-se uma longa e sinuosa descida, rápida e perigosa. Logo nas primeiras curvas, uma queda aparatosa deixou alguém aparentemente maltratado. A partir daí, tive ainda mais prudência na abordagem das curvas, mas as rectas o velocímetro ascendia a 70 km/h.
Já cansado de tanto… descer, quase em Briançon avisto a encorajadora placa, já habitual nesta prova: «Só faltam 100 km!», a que se seguiu, 10 km adiante, outra do mesmo género, mas, digamos, com outra filosofia: «Você já percorreu 100 km». Estava dado o mote para a segunda metade da prova.
Quando terminei a descida, apercebo-me de como a temperatura estava alta. Mau augúrio. No abastecimento de Briançon faço a paragem programada. Bebo de seguida quase meio litro de água fresca, reencho os bidões e meto mais duas garrafas debaixo da camisola. Volto a partir nem três minutos depois.



Chegara a vez de atacar a segunda grande dificuldade da jornada: o Col du Lautaret (12 km a 4,4%, portanto mais acessível que o Izoard). Ainda no interior de Briançon, quando penso que a aproximação à subida vai ser doce, deparo-me com uma rampa de cerca de 500 metros a mais de 10%! Meti a «calçadeira» (36x25) e ia por ali acima quando passa por mim o «campeão da Alemanha» com a «talega» metida e a sprintar como se não houvesse amanhã. Bem, será de «outro campeonato», pensei. No entanto, o ímpeto passou-lhe depressa e ainda antes do final da rampa agarrei-lhe a roda. Por sinal, uma excelente roda, que chupei durante os longos falsos planos ascendentes do início do Lautaret, feitos quase sempre acima dos 35 km/h, a «queimar» pequenos grupos e alguns ciclistas desastradamente isolados ao vento frontal.
Mas o alemão não era muito prestável a boleias e, por duas ou três ocasiões, tentou-me sacudir quando fazíamos transição entre grupos. Como não teve êxito (apesar de algumas vezes eu ter deixado abrir alguns metros para não ir ao choque), finalmente habituou-se à minha companhia parasita. Mas eu estava disposto a retribuir a gentileza. Mais tarde, por certo. Então iria conhecer a verdadeira fibra dos Pina Bike. E assim que chegaram as maiores inclinações, assumi o comando. Durante os últimos 9 km da subida fiz as despesas, rebocando não só o alemão, como um verdadeiro comboio. Com quase 140 km percorridos, as pernas pareciam mais leves que nunca e a consequência foi a perda gradual da composição, inclusive o germânico, que se ficou algures nos últimos 5 km da subida. A aproximação ao topo do Lautaret também é espantosa… e falsamente aterradora. Os últimos 1,5 km perfazem numa longa curva, que circunda a montanha, avistando-se, sobre o lado direito, uma subida ainda mais íngreme. Às tantas, receie que o nosso caminho fosse por ali, mas rapidamente constatei que não: é o Galibier, esse velho conhecido! Um dia havemos de ajustar contas antigas…
Desde Briançon até ao Col du Lautaret (28 km) fiz 22,5 km de média e 146 bpm de pulsação. Muito positivo!
A descida do Lautaret é longíssima e tem… subidas! Nesta altura deu perfeitamente para perceber como iam justas as forças no grupo que entretanto se formou. Quando surgiam os topos mais longos – o mais picante, após o lago artificial da barragem do Chambon e o cruzamento para a subida dos Deux Alpes (outra espinha atravessada desde a Etapa de Tour de 1998) – o grupo fraccionava-se e acabou mesmo por perder a maioria dos elementos na montanha-russa que nos leva a Bourg d’Oisans, a localidade que fica no sopé do mítico Alpe d’Huez, e onde, aliás, se desfez como por magia…



Aqui: 176 km cumpridos e 6h11m de selim. Cruzamento à direita para sair da estrada nacional, pequena recta e curva à esquerda e eis a arrepiante primeira rampa do Alpe d’Huez. Nos primeiros 2 km, nas ligações entre as célebres curvas em cotovelo (21 ao todo), a inclinação é de 12%! Mas pior que a dureza do relevo foi o calor que fazia àquela hora – um autêntico braseiro a 35 graus. E ainda pior foram as dores que sentia no pé esquerdo, devido ao sapato, que já me tinha deixado os dedos dormentes – ainda estou para saber por que motivo. Foi pena, pois sentia-me bem, com força para gastar «à bruta» montanha acima. Enquanto que ia lutando contra a sede, a dor e as fortes percentagens, a única panaceia era a aproximação à meta. Valeu-me a solidariedade de muitos espectadores à beira da estrada, dando a beber água fresca das inúmeras fontes ao longo da subida. Mas não só. Também houve benditos que se deram ao trabalho louvável de instalar chuveiros. Apeteceu-me ficar já ali.



A certa altura, mesmo com os miolos quase fritos, assolou-me a seguinte ideia, uma espécie de lema desta prova: «Não há Etapa do Tour sem sofrimento ou provação». E esta estava em falta. Tudo tinha corrido demasiado bem até então, por isso o calor e as dores tinham chegado a tempo de crivar o Alpe d’Huez na memória desta participação.
De qualquer modo, a cerca de 4 km a vontade de chegar rapidamente ao alto superou o sacrifício, e a iminência da entrada na famosa estância de ski quase dissipou as dores e o cansaço. A partir daí, a inclinação baixa e já nos arruamentos, entre as casas alpinas, prescindo da pedaleira grande para elevar desmesuradamente a rotação dos pedais – recordando Lance Armstrong. Nos últimos 500 metros, já com um sorriso nos lábios, às tantas fico lado-a-lado com outro ciclista, cujo dorsal era muito próximo do meu (6000 e tal). Depois de balbuciar qualquer coisa num francês imperceptível, decide forçar o andamento. O que quereria? Talvez não perder um lugar para um potencial concorrente directo? Embora soubesse (ao contrário dele) que apesar do meu número (6290), tinha partido da barreira dos 7000 – logo estava com uma vantagem que não se anularia ao sprint –, não quis perder a oportunidade de terminar em grande estilo e fiz-me à recta final com tal violência que devo tê-lo surpreendido. Com a embalagem ainda passei mais dois até à meta. Missão cumprida!


Ainda mal refeito, inicio a sempre demorada mas saborosa degustação de toda a epopeia. Entretanto, detêm-me por uns instantes para me retirar o chip do tornozelo e meter à pressa uma medalha no bolso. Depois, com um pouco amigável empurrão ajudam-me a sair dali… rapidamente.
Assim que franqueio o arco insuflável, assolam-se-me as prioridades: ingerir líquidos em grande quantidade… e depois comer, comer! Só penso que o saquinho de mantimentos que nos oferecem à saída desta vez não vai chegar. Vejo milhares de garrafas de plástico empilhadas em paletes atrás de uma vedação metálica. Penso: vou saltar, não quero saber. E a bicicleta, onde guardar? E o pé a rebentar dentro do sapato. Descalço-me, prendo os sapatos aos pedais, meto a bicicleta, capacete e tudo, no parque fechado (estilo super-bengaleiro) e corro para a fila do saquinho com o «voucher» em riste. Não tive de esperar muito, mas quando desfaço o nó de plástico a visão é aterradora: uma garrafinha de água de 33 cl e outra de 0,5 l, com gás. Engulo a primeira quase sem tirar a tampa e preparo-me para a beber a gaseificada já convencido que ao primeiro golo vomitaria… Felizmente, não. E deu para tirar o depósito da reserva.
Agora, comodamente deitado no chão da tenda-restaurante, a salvo da canícula que se fazia sentir no exterior, devoro a banana e o pacote de batatas fritas tamanho XS. Ficaram a barra energética e o bolo de mel… arrrggg!!! Iguarias prescindíveis, pois a minha salvação estava ao fundo do balcão: um prato de macarrão com molho de tomate e mozzarela. Corri para o apanhar e ainda tive a desditosa lata de pedir reforço. Manjar abençoado, que degluti calmamente na soalheira tribuna principal.
Nos mais de 15 minutos que lá estive a encher-me de massa não vi passar nenhum dos meus dois companheiros. Ocorreu-me que o Nuno deveria ter perdido bastante tempo ao ter ficado para trás tão cedo. E que o Jerónimo, por ter feito o mesmo ainda antes, também estivesse para concluir a prova.
Sobre este, não me enganei por muito, já que depois de ter abandonado o meu posto na bancada e subo em direcção à zona de chegada, encontro-o ainda a refazer-se do esforço, mas já na companhia da mulher e de boa saúde. Mesmo assim, reconheceu imediatamente que nunca antes tinha sofrido tanto.
Todavia, fiquei surpreendido quando a Lena me diz que o Nuno ainda não tinha chegado e que só poderia estar a passar mal. Eu não precisava de mais para saber que a sua preocupação tinha fundamento. Já passara quase uma hora desde que cheguei e um atraso tão grande só poderia justificar-se por estar em grandes dificuldades. Ainda se teve de aguardar cerca de um quarto de hora para confirmá-lo. Chegou quase irreconhecível. De tal modo, que a sua cara quase desaparecia debaixo do capacete. O rosto esbranquiçado, encovado, marcado pelo sofrimento. As suas primeiras palavras resumem tudo: «Não devia ter-me metido nisto!» Duro ensinamento, sábias palavras: a Etapa do Tour é a mais bela do Mundo mas também é terrivelmente impiedosa para os incautos. Eu que o diga, que já fui sua vítima. Mais do que uma vez! Por isso, estou a aprender a vencê-la…

segunda-feira, julho 03, 2006

Fica para a próxima!

Chamboeira: o Durão acelera, destaca-se do pelotão, levando na roda Pina, Fantasma e Salvador. O grupo principal mantém-se na expectativa. O Carlos passa para a cabeça para avivar o ritmo, mas nessa altura já era necessária uma aceleração mais vigorosa. Recomendava-se, pois, uma perseguição organizada – sob pena se cair em desgarrada.
O andamento imposto pelo Durão entre os fugitivos permitiu-lhes ganhar rapidamente vantagem significativa… e a aumentar à vista desarmada. O Salvador não resistiu e deixou-se descair, sendo reabsorvido pelo pelotão. Bem fez!
À passagem pelo alto da Freixeira (Venda), os escapados passaram a ser cinco com a entrada do ZT e do Abel (que aí esperavam pelo grupo). Atrás, sete perseguidores: Ricardo, Carlos, João, Samuel, Salvador, Pintainho e o amigo do Pedro. O Salvador vacila após a subida do Vale de S. Gião, obrigando a refrear o andamento. Nada de preocupante. O João ajuda-o e a recolagem é consumada na Malveira. Os fugitivos há muito que tinham saído da vista do pelotão.
Na descida para Vila Franca do Rosário, o João e o Salvador estiraram bem o grupo e mesmo a mais de 60 km/h começou a afinar-se a perseguição. Foi o que se viu no topo de Vale da Guarda. A partir de Barras, toda a gente já passava pela frente. Cerca de 20 segundos a cada um para não «queimar» e sem esticões. Aliás, ninguém estava autorizado a forçar o andamento. O importante, nesta altura – mesmo sem controlo visual dos fugitivos –, era manter a distância, que à velocidade que se rodava atrás dificilmente poderia aumentar – a não ser que se estivessem a «esturricar». Neste caso, pior para eles!
Foi muito bem respeitado o pedido de prudência nos topos do Turcifal, porque se aproximava a subida do Carvalhal para Catefica, onde era necessário jogar os «trunfos», sem, no entanto, sem arriscar colocar em cheque a harmonia do pelotão. Subiu-se muito bem e se era necessário mais alguma prova que o grupo perseguidor estava coeso, ela dada. Para minha surpresa, avistámos os fugitivos praticamente a passar pelo alto (Catefica). De facto, não previa tão rápida recuperação. Teriam de ter «parado»! Ainda mais surpreendente: o Durão estava ligeiramente adiantado e levada na roda o… Abel. ZT, Pina e Fantasma tinham cedido! Por isso, aliviámos imediatamente o andamento. As «presas» estavam controladas.
Mas eis que soou o alarme no pelotão: o Samuel desaparecera sem deixar rasto… Eu e o João aguardámos… aguardámos… e nada! Não poderia ter perdido tanto tempo. Voltou para trás?!
Novamente no seio do pelotão e já no início da subida de Sarge apanhámos o trio intermédio (Pina, ZT e Fantasma), com o Durão e o Abel cerca de 300 metros adiante. Estava a ver-se que chegara a hora do primeiro lançar a derradeira cartada se ainda alimentasse esperanças de chegar ao alto da Ereira isolado. O Abel foi absorvido e fomos da peugada do fugitivo – que definitivamente tinha acelerado e bem. Ou seja, atrás também não se podia facilitar. Por isso, forcei o andamento na subida e o João e Salvador continuaram o bom trabalho na descida para Ermegeira. As hipóteses do Durão diminuiam. Mais: pelotão mantinha-se agrupado – à excepção do Fantasma, que ficara ligeiramente para trás.
Chegámos à subida da Ereira: dura, com 3,2 km, uma média de 7%, longas rampas a 9% e passagens a 11%. O Freitas entrou destacado, cerca de 300 metros. Ainda era qualquer coisa. Atrás, após alguma controvérsia sobre o paradeiro do Fantasma (que reteve o andamento durante as primeiras centenas de metros), o Pintainho «meteu» o passo, levando na sua roda o Carlos. Quase todos procuraram fazer o mesmo. À entrada do tal km a 9%, passei para a frente. Às tantas, ouço lá atrás alguém gritar: «O Capitão vem aí, podes ir!» E fui (mas já ia!), abrindo rapidamente para o Pintainho e o Carlos. O ZT e o João vinham também lá. O Freitas levava ainda 150 metros vantagem, mas como estava nitidamente em perda e a distância esfumou-se num ápice. A 200 metros do final da parte dura cheguei à sua roda e passei ao ataque. À primeira sacudidela respondeu bem, mas após o ligeiro descanso (6%), junto às bombas, perante nova aceleração forte na rampa de 10%, que inicia os 600 metros finais da subida, cedeu clamorosamente.
O Carlos, Pintainho, ZT, João e os restantes não demoraram muito tempo a chegar ao cume – somente o Fantasma necessitou de algum ânimo suplementar. E o Pintainho não perdeu tempo a servir-lhe o prato frio da vingança.
A partir daqui, a volta seguiu em «paz», mesmo com o Salvador fugido, pairando no ar a sensação, quase generalizada, do dever cumprido. Os últimos metros do Alqueidão ainda deram para voltar a ligar (e bem) as turbinas, mas até aí os bravos do dia estiveram em grande, descendo-se para Bucelas a bom ritmo – e com quase toda a gente junta.

Notas de observador:

1. A frase começa a estar batida, mas ontem voltou a «fazer-se ciclismo». O grau de exigência aumentou consideravelmente em relação ao domingo transacto, e a volta não era mais «doce». Todavia, o nível do grupo permite esses excessos. Uma fuga duradoura e um pelotão a perseguir. Toda a gente correspondeu a preceito. Lá à frente, os fugitivos fizeram um trabalho muito bom, destacando-se rapidamente – e isso exige um esforço adicional, cuja factura não se pode deixar de pagar mais tarde. Atrás, os perseguidores (e eu posso testemunhar) estiveram irrepreensíveis. Para eles, em especial, os meus parabéns. Passaram-se momentos de forte empenho e o resultado final (a anulação da fuga) foi recompensador. Se me permitem o pretensiosismo: se eu fosse o chefe-de-fila daquela equipa, asseguro que esta não poderia ter feito melhor trabalho para me deixar com possibilidades de discutir a «vitória» na Ereira. Para a próxima, prometo retribuir.

2. Também os fugitivos estiveram muitíssimo bem, embora tenham, porventura, exagerado no esforço para manter (ou então, aumentar a diferença) durante muitos quilómetros. A missão não era fácil e até começou da melhor maneira para o grupo de 3 e depois 5 elementos, abrindo rapidamente um fosso para o pelotão e saindo da vista deste também (o que é uma vantagem muito importante), desencorajando assim a anulação rápida da fuga. O grupo era forte mas não terá feito a gestão de esforço ideal, que era exigível para fazer vingar a escapada. Repito: não era fácil! Todavia, o Durão esteve quase a atingir os seus objectivos e o ZT fez uma excelente subida da Ereira, repetindo as boas indicações dadas há uma semana em S. Tiago dos Velhos.

3. Por falar em boa indicações, não se pode deixar de referir (e repetir) a excelente forma do João. O seu trabalho no pelotão perseguidor foi fundamental, não apenas pelo trabalho, mas também na ajuda à coordenação. E depois ainda teve forças para corresponder com galhardia à dureza da Ereira e mais tarde no Forte de Alqueidão, onde, pelos visto, teve um desempenho que impressionou o Pina. Rendido ao desempenho do João no final da subida, em resposta à minha aceleração e do Freitas, o Relojoeiro (que seguiu a sua roda) não lhe poupou elogios.

4. Mas o João não foi o único em elevadíssimo plano. Para ser realmente justo, todos os que participaram nesta volta mereciam referência. Mas perdoem-me a parcialidade em relação ao pelotão perseguidor: o Carlos esteve ao seu melhor nível: com o coração a 190 no final da Ereira disse que chegou a ver estrelinhas. E o Pintainho irrepreensível, ajudando o grupo e muito bem na Ereira, provando desta vez os seus créditos de trepador. Mas também o Salvador e o Amigo do Pedro: abnegados! E o Samuel… enquanto não se eclipsou algures entre o Carvalhal e Catefica! A sério: espero que não tenha passado mal.

5. Já agora, para eventuais interessados, a minha pulsação média na subida da Ereira foi de 172 bpm, sendo no início baixa (155) e nos últimos dois quilómetros sempre acima das 180, com «pico» às 189. Outro facto relevante: entre a Malveira e o Carvalhal o grupo perseguidor fez a excelente média de 36 km/h.

6. A terminar: segue-se a Etapa do Tour (próxima segunda-feira, dia 10). O trabalho de casa está feito: 10.500 km na temporada (mais de 9000 km desde 1 Janeiro) e as baterias afinadas para conquistar o Izoard, o Lautaret e o Alpe d’Huez. Na fantástica companhia do Miguel e do Nuno, vamos ser três entre 8500 à partida de Gap, para 190 km que prometem ser inesquecíveis.

quinta-feira, junho 29, 2006

Novos «papa-quilómetros» e as consequências

O nível do pelotão Pina Bike não pára de aumentar. Pelo menos, a atentar pelo empenho e disponibilidade para treinar de cada vez mais dos elementos que habitualmente o compõem e, com isto, acentuando o desequilíbrio entre os que, por motivos diversos, descuram a preparação. De um cenário, não muito longínquo, de só se andar de bicicleta aos domingos, nas habituais voltas, passou-se para regimes praticamente diários de treino – isto exceptuando os chamados «internacionais» que, por força dos seus compromissos além-fronteiras, tiveram sempre mais rodagem. Agora fala-se de programas semanais de seis dias, de meses de 500 km! Nem os «internacionais»!

Mas este aumento exponencial do volume de treino tem consequências inevitáveis, algumas a implicarem reflexão:

1ª- Vai haver um aumento inevitável do fosso entre os novos «papa-quilómetros» e os que – repito, por diversos motivos – continuam no regime antigo. A manter-se o desequilíbrio de treino, mesmo que actualmente ainda não seja visível, a médio (quiçá a curto) prazo as dificuldades dos menos rodados não vão ser somente em aguentar os «internacionais» (como agora), mas também os que já treinam tanto como estes.

2ª- Consequência da primeira… consequência: depois vamos ver se serão os raspanetes que os farão parar os novos poderosos! Não foi por acaso que, no rescaldo do último domingo, se falou de grupo de elite sobre o que participou naquela exigente volta e resistiu a andamentos tão selectivos. Ou seja, quem está a perder terreno terá enormíssimas dificuldades, agora e no futuro, em acompanhar o ritmo do pelotão – e não só o que os «internacionais» a espaços impõem. Daqui a algum tempo ainda será necessário impor zonas de andamento livre…

3ª- Esta tem um cariz um pouco mais científico mas serve de alerta para eventuais efeitos contraproducentes do treino intensivo. Ou seja, o aumento do volume e da carga de treino provoca efeitos positivos mais ou menos imediatos, mas implica uma abordagem muito mais criteriosa aos métodos fundamentais da preparação física – treino, descanso e alimentação –, sob pena de a grandes picos de forma sucederem quebras igualmente vertiginosas. Creio que até já existem alguns indícios preocupantes – refiro-me ao afundamento do poderoso Fantasma em S. Tiago dos Velhos. Como bem diz o Durão, o mais difícil não é atingir a boa forma, mas sim mantê-la, principalmente para quem, como o nosso pelotão, tem domingos «competitivos» durante quase todo o ano. E também de mim (ou contra mim) falo!

terça-feira, junho 27, 2006

Dureza, ataque e... polémica!


«Eh pá, o Capitão está roxo!» A afirmação do ZT, no alto da Freixeira, onde ele o Abel nos esperavam, definiu o mal que o Fantasma passou para ali chegar, desde Loures. Primeiro, foi o Durão a impor um passo rijo, constante, na subida de Guerreiros, e depois, eu, a partir da Freixeira até à Venda do Pinheiro. Andamento, de facto, demasiado alto, convenhamos, tendo em conta que eram os primeiros quilómetros (e duros!) e a dificuldade do percurso. Reconheça-se…
Relaxou-se na descida para a Bucelas, mas, mais tarde, a caminho de S. Tiago dos Velhos o ímpeto voltou a disparar. Eis o Durão ao ataque, logo na primeira rampa à saída de Bucelas. O pelotão teve de cerrar fileiras na perseguição, mas rapidamente se fizeram as primeiras baixas: o Fantasma tirou bilhete. E o que à primeira vista parecia uma medida de poupança foi, pelos vistos, a roxidão que lhe desceu às pernas. Fez bem, digo eu!
Analisada a situação à cabeça, não foi difícil perceber que o fugitivo estava com ideias fixas, por isso era aconselhável mantê-lo à distância e não incorrer no erro de recuperar em esticão. Para tal, impunha-se que o ritmo do pelotão fosse elevado e, principalmente, não fraquejasse. O que não se afigurava fácil... Todavia, ainda a meio da subida, o fugitivo já estava controlado. Nessa altura, fiquei satisfeito, acima de tudo, pelo facto de na minha roda ainda se manter um grupo apreciável: João, ZT, Salvador e um outro elemento novo.
A aventura do Durão terminou em S. Tiago dos Velhos, antes da parte mais complicada da subida, a partir de Adoseiros. Assim, mal foi absorvido, passou-me as rédeas. E na aceleração final, segurou-se com firmeza à minha roda. Os perseguidores referidos chegaram ao Lameiro das Antas com pouco mais de 40 segundos de atraso. Excelente!
Depois de esperar e esperar pelo Fantasma – agora já com outras cores! -, retomámos a marcha a caminho do Sobral, descendo à Quinta do Paço. Mas aí a polémica estalou. O Relojoeiro atirou-se ao Durão, culpando-o do castigo infringido ao pelotão (ele que até se juntou apenas na Chamboeira!!!). A partir daí, o Durão amoleceu e com o grupo fustigado fiz as despesas desde Arranhó até Santana da Carnota. Ao todo, 40 km. Valeu a pena, acima de tudo, pelo proveito. O andamento foi moderado, sem momentos de relaxe, e por isso penso que todo o pelotão lucrou. Após a Freiria, de regresso ao Sobral, soltou-se finalmente. A subida para o Forte de Alqueidão não destoou, mas a descida para Bucelas foi a «mata cavalos». O Durão voltava às lides, provavelmente embrutecido pelo raspanete» e impôs um ritmo «assassino» que só o Salvador (em muito boa forma) conseguiu resistir, numa típica prova de eliminação… A velocidade média é elucitativa: 46 km/h. Já agora, a média total da volta também: 29 km/h. Podiam era ter dado uma ajudinha.

Notas de observador:

Elogios à tenacidade dos elementos que completaram a volta (cerca de 115 km e quase 1500 metros de ascendente acumulado), porque as dificuldades começaram cedo, agravaram-se a meio, e a parte final não foi nada fácil. Estiveram que nem aço, principalmente o Fantasma, o referido elemento para mim desconhecido e o João, embora este se tenha adiantado aquando da longa espera no Lameiro das Antas, continuando apenas na companhia do Samuel. Foi pena, porque o João provou estar em grande forma. Como nunca o vi! Acabámos por reencontrar este duo, já na descida do Forte do Alqueidão para Bucelas. Mas como estes, outros, como o Abel e o Salvador, que entraram mais tarde, também acabaram a volta. Em grande!

A subida de S. Tiago dos Velhos foi interessante, apesar de todas as dificuldades por que a maioria dos elementos passou. O ataque do Durão logo no duro primeiro quilómetro e o facto de ter sido «para valer», obrigou a uma perseguição aplicada, na qual devo destacar a excelente prestação dos elementos que se mantiveram firmes na minha roda. E apesar da fuga ter estado quase sempre controlada, havia que evitar fazer a reabsorção em «esticão» e ao mesmo tempo não deixar cair o ritmo. O Durão apercebeu-se rapidamente que não iria longe e para evitar mais desgastes abdicou antes de S. Tiago dos Velhos, passando de imediato à defesa – ou seja, à minha roda. A partir de Adoseiros, a inclinação aumenta e com a fadiga acumulada o grupo desmembrou-se naturalmente. Mas tal não diminui a sua prestação. Bem pelo contrário. Os 9 km entre Bucelas e Lameiro das Antas foram intensos q.b. – e a prová-lo estão os «meus» 168 bpm de média.

Quanto ao episódio que gerou tanta controvérsia, creio que as razões se dividem. Já se disse que o andamento imposto desde o início pelo Durão foi realmente elevado e a passagem pela Freixeira foi mais difícil ainda - embora não tanto pelo ritmo na subida (4.26m é um crono que está dentro da normalidade), mas porque não houve metro de tréguas até aí chegar. E daí até alguns «poderosos» ficarem roxos foi um ápice. Mas o ataque do Durão em S. Tiago dos Velhos não pode ser condenado. Ali é terreno propício. E fez-se ciclismo! Do bom! Os que participaram (tão bem!) no esforço de perseguição têm motivos para estar satisfeitos.

Surpreendeu-me o João. Está em grande forma, a dar o litro e a ler muito bem as incidências da prova. Pena que não tivesse feito o resto do percurso em grupo. Bem precisei da sua ajuda! Serão os treinos a meio da semana com o Durão? E quem é o novo elemento, que desconhecia? Esteve tão bem como o João, juntando a isso o facto de ter integrado sempre o núcleo duro que completou o percurso. Esperemos que seja para continuar?!

segunda-feira, junho 19, 2006

De volta às lides... bravas

Antes de mais, saudações ao Miguel e ao Nuno pela excelente participação na Quebrantahuesos. As classificações obtidas provam os magníficos desempenhos de ambos na rainha das Clássicas cicloturistas em Espanha, e são muito bom pronuncio para a Etapa do Tour, onde estaremos juntos no próximo dia 10 de Julho.
Miguel: 7h21m09s (posição 1845, média de 27,8 km/h)
Nuno: 7h25m17s (posição 1999, média de 27,6 km/h)

Por cá, depois de uma semana de «estágio» a banhos, mas de chuva, numa estação balnear algarvia voltei ao convívio do grupo em mais uma volta domingueira – e também a relembrar-me de como se está a andar depressa…
O percurso era relativamente acessível, logo, propício a grandes cavalgadas. Todavia, depois da primeira parte plana, entre Loures e Alenquer, tornava-se mais acidentado, com pontos fortes a coincidirem com a dura rampa do cemitério de Ribafria, a subida da Freiria para o Sobral e depois para o Forte do Alqueidão. Mas mesmo o sobe e desce final acabou por não foi suficiente para um pelotão cheio de força, havendo necessidade de «meter» mais quilómetros e a subida da Tesoureira para Casais da Serra para saciar o apetite dos mais vorazes. Enfim…
No início, após o habitual aumento progressivo do andamento até Alverca, a velocidade de cruzeiro disparou consideravelmente (como também é tradicional), cumprindo-se uma média superior a 36 km/h até Vila Franca, troço «fetiche» do Durão, que aproveita quase sempre para «abrir a caixa». Seguiu-se uma passagem invulgarmente suave pela rudeza do empedrado de Vila Franca, mas após a Castanheira o grupo voltou a «andar» depressa até Alenquer.
A partir daqui começavam as dificuldades do relevo, embora sem grandes obstáculos. Aliás, os maiores foram a péssima qualidade do piso na estrada de Ribafria e o topo picante que ascende ao cemitério. Foi aqui que o grupo se retraiu. Talvez devido ao desconhecimento quase generalizado da subida, que apesar de ter uma parte inicial bastante acentuada (precisamente a que passa junto ao cemitério) é curta e passa-se bem (menos de 1 km). Também devido à aceleração (coração acima das 180 bpm), houve uma selecção mais acentuada do que seria previsível, destacando-se as boas prestações do Carlos (dos poucos que já conheciam a subida) e do Zé-Tó (que não deve ter tiudo receio na abordagem). Por isso, o reagrupamento foi mais demorado.
Na subida para o Sobral recuperaram-se forças, embora nos últimos quilómetros, mais suaves, tenha havido alguma animação, principalmente por «instigação» do Carlos, que iniciava então uma série de ataques invulgares nele – atitude a saudar! O Salvador foi outro que impressionou, não tanto pela combatividade (já habitual), mas porque esteve sempre em lugares de destaque, respondendo muito bem às mudanças de velocidade mais fortes, sem quebras. Por exemplo, no Forte do Alqueidão não se coibiu de levar o grupo na subida, na companhia do Fantasma, mas acabou por se acusar menos que este o esforço quando os «poderosos» entraram em acção (no esforço final fui às 191 bpm). De resto, aqui foi o Durão a abrir as hostilidades, com o Carlos a responder muito bem aos ataques.
A descida para Arranhó foi (invariavelmente) rápida. O Durão meteu o «passo» e o grupo teve de se agarrar. Porque não fiz o mesmo, fiquei descolado e tive de gastar energias suplementares, tendo sido salvo pela paragem para reabastecimento nas bombas de Arranhó.
A subida da Tesoureira para Casais da Serra voltou a aquecer a volta, com o Carlos (mais uma vez!), a mexer no ritmo do pelotão. E quando se desceu para Bucelas, a coisa ferveu no topo da fábrica de ração – aqui com uma intervenção escaldante do Fantasma e do Pina. O sprint em Bucelas foi interessantíssimo, mas o Durão ainda teve forças para recuperar e passar à frente, depois de ter sido surpreendido quando relaxava após o topo. Isto depois de eu ter batido o Fantasma por uma unha negra.
Mas o calor não parou. A subida do restaurante dos Pneus voltou a derreter a união do grupo – e a mim, definitivamente, que, ao ter decidido «tirar tudo» antes do topo, vi o grupo passar em bloco e já não tive «disposição» para fazer o esforço de recuperação – quando o grande Abel o fez com êxito. Ainda segui o pelotão endiabrado à distância até à subida de S. Roque, mas depois dei meia-volta com o objectivo de fazer mais algumas dezenas de quilómetros. O regresso a Alverca, em descompressão, acabou por ser complicado devido à fadiga muscular (excesso de ácido láctico acumulado em quatro ou cinco acelerações muito fortes), mas aos poucos, depois de voltar a comer e beber bem, os depósitos saíram da reserva, permitindo fechar a contabilidade (141 km) com a subida de A-dos-Melros.

quarta-feira, junho 07, 2006

Falcões e novatos

O Durão tinha recomendado andamento moderado nos primeiros quilómetros da exigente volta do último domingo, e tivemo-lo. Mas não para todos: o João, logo em Guerreiros, começou a sentir inesperadas dificuldades, deixando-se descair do grupo e «obrigando» a intervenção dos pronto-socorro de serviço.
De novo compacto em Ponte de Lousa, o pelotão deslizou sem sobressaltos até à Venda do Pinheiro, inclusive na sempre exigente subida da Freixeira. A partir daqui, o ritmo animou-se. O vento de feição e a convidativa recta da Malveira fez quebrar, pela primeira vez, a barreira dos 50 km/h. A rolar!
Entretanto, quando o pelotão se preparava para descer para Vila Franca do Rosário chegou a notícia que o Hélder estaria na Venda do Pinheiro e vinha de… BTT! De roda cardada! Rasgaram-se imediatamente alguns sorrisos trocistas, prevendo o desfecho de tamanho sacrilégio em dia de jornada pouco convidativa a atitudes imprudentes – mesmo para que têm força em abundância, como é o seu caso. Felizmente (ou não), a sentença estava traçada. A velocidade com que os falcões se precipitaram na descida absolveu-o ao previsível tratamento de choque a que estaria condenado, lá mais para a frente.
Num ápice, os 50 km/h da Malveira passaram a parecer ridículos e foi proibido facilitar na rápida descida até ao cruzamento do Gradil, para onde o Tárcio estava com vontade de ir (será que começa a estar habituado à estranha atracção pela dor desta malta do Pina Bike!). Lá em baixo, o estreante Paulo Pais estava à nossa – para nos «tratar»! Feitas (rapidamente) as honras da casa, tocou a meter andamento, tanto mais que a presença do Durão à cabeça do grupo no início da subida para a Enxara do Bispo estava mesmo a pedi-lo! Refira-se que Paulo Pais compete, logo está noutro patamar. A sua fisionomia não mente: não há grama de gordura supérflua. Finalmente, o Durão tinha companhia com quem partilhar o seu estado de euforia… competitiva. Quem quisesse que fosse atrás! E não é que foram!
De tal modo, que, quando se abriu a janela ao vento no início do difícil troço entre Enxara e Pero Negro, já todos os Pina Bike estavam nos seus postos. A maioria a arfar, é certo, mas em formação ordenada. De peito feito…
Já a caminho do Alto da Sapataria, as primeiras escaramuças valentes. O Carlos e o Daniel (?) saíram em estilo, e o Miguel foi no seu encalço. Os três ganharam rapidamente avanço e passaram à frente no Prémio de Montanha. Aliás, o objectivo do trio era apenas esse, pois «tiraram» logo a seguir, sendo absorvidos rapidamente pelo pelotão, completamente estirado na esburacada descida do Milharado, já com o Freitas e o «falcão» Fantasma na liderança.
Assim, quando um pequeno grupo, que integrava o Durão e o Paulo Pais, chegou à Póvoa da Galega com alguns segundos de avanço sobre os restantes, reuniam-se as condições para a primeira grande situação de «corrida». Perante o ritmo de competição imposto pelos fugitivos, os perseguidores tiveram que se fazer à vida. Sem grande êxito, diga-se. Rapidamente, vi-me em posição intermédia e a fazer contas à vida. E às distâncias. Cerca de 20 segundos para a frente e a aumentar… e talvez o mesmo tempo para um pequeno grupo que vinha atrás, em que se vislumbram o Carlos e o Pintainho. Supostamente o Miguel também deveria estar, mas depois veio a saber-se que ficara com o Samuel, que passava algumas dificuldades.
No cruzamento de Casais da Serra para a Tesoureira, os fugitivos abrandaram (já era tempo!) e eu reintegrei-me (agora) sem grande esforço. Pouco depois chegavam, um a um, os restantes elementos. Não todos! O Miguel e o Samuel estavam em paradeiro incerto. O grupo deu por essa falta já na estrada do Sobral, a caminho de Arranhó – e o Durão deixou-se ficar! Grandes perdas, pois já se sabia que, com as figuras que pontificavam no pelotão, a «coisa», com certeza, seria interessante lá mais para cima, rumo ao Forte do Alqueidão. Assim, o ritmo foi brando até Arranhó, mas sem sinal dos retardatários, mas a partir daqui aumentei gradualmente o andamento – o suficiente para a maioria dos elementos do grupo ter optado por não segui-lo. O único que, mais tarde, o fez foi Paulo Pais, que, na zona dos ferro-velho, se juntou a mim e passou imediatamente ao comando, impondo um ritmo muitíssimo alto até ao Forte de Alqueidão – média a roçar os 30 km/h e pulsações superiores a 175 –, a que devo dar-me por satisfeito ter conseguido seguir. Sem dúvida, uns bons furos acima do que alguma vez fiz naquele troço da subida.
A partir daqui, o terreno suaviza, primeiro, em descida, rumo ao Sobral e a Arruda dos Vinhos, e depois para o Carregado, onde nos esperava longas rectas até Vila Franca e Alverca. Ao contrário do que se previa, não houve mais ataques ou escaramuças, apesar de o ritmo se manter bem vivo, primeiro graças ao Miguel (40 à hora dos Cadafais até ao Carregado) e depois com um trabalho repartido pelos «nossos» poderosos roladores – com enorme contributo do Samuel, recuperado do mau bocado por que passou na Tesoureira e no Sobral.

Notas de observador

Sobre as estreias dos dois novatos, diga-se que da «intromissão» do Paulo Pais já está quase tudo dito e sabido, não estivéssemos na presença de um homem da competição, logo de nível inequivocamente superior. Senhor de andamento muito forte (bem acima do recomendado), provou que tem «capacidade» para, sempre que quiser, juntar-se aos gloriosos do Pina Bike. Teremos muito prazer em voltar a descarregá-lo.
Já em relação ao Pintainho, oriundo do universo das rodas cardadas, cuja presença era há muito aguardada com expectativa, esteve muito discreto enquanto durou… E foi pouco, uma vez que deu a volta ao cavalo no Forte do Alqueidão (aos 60 km de 110 km), depois de ter abanado com alguns achaques violentos e talvez adivinhando as agruras que o esperavam nas longas descidas e na planura que se seguiam.
De qualquer modo, ao voltar para trás (mesmo acabando, sem querer, por se integrar no lote dos mariquinhas, que referi na antevisão da volta), deve ter tido, finalmente, tempo para comer qualquer coisa, já que foram muitas as suas queixas por nem sequer conseguir ir aos bolsos devido aos ritmos dos falcões nas descidas. Mesmo assim, esperava-se mais também nas subidas, afinal o seu terreno predilecto. No Sobral (salvo erro!), parece que ainda tentou seguir a roda do Paulo Pais quando este acelerou para me «caçar» e acabou por pagar a factura. Fica a experiência... e o conhecimento de como se deve comer em cima de uma bicicleta de rodas finas.

Pena para as ausências do Durão e do Miguel no Sobral – de Arranhó ao Forte de Alqueidão. Garanto que foi uma experiência verdadeiramente positiva. Única. A repetir.

Finalmente – e mais uma vez –, rasgados elogios ao comportamento do grupo, que está muito forte e motivado

quinta-feira, junho 01, 2006

Doping e indecência

Variando um pouco, do mundo do nosso ciclismo para o ciclismo do nosso Mundo, há alguns assuntos da actualidade, no âmbito do pelotão internacional, que são motivos de grande controvérsia. Primeiro, o habitual: caso de «doping» que envolve o ciclismo espanhol, nomeadamente a Liberty e o seu director-desportivo, Manolo Sainz, e a Comunidade Valenciana, e o respectivo responsável. Uma vez mais, os contornos são diferentes, mas o conteúdo é sempre igual, confirmando que o ciclismo está mesmo viciado e que corre seriamente o risco de cair no mais profundo descrédito aos olhos dos seus mais ingénuos adeptos – em que eu reconheço incluir-me. Há algum tempo, o Pintainho veio aqui expor a sua opinião sobre os meandros do doping, numa teoria tão verosímil como frustrante, mas que, agora, começo a considerar – infelizmente, assumo – como condicionante irrefutável da verdade que deve imperar em qualquer competição desportiva.
Perante as notícias de doping que se avolumam, a minha tristeza é proporcional à revolta que move a vontade de ver todos os «fraudulentos» exemplarmente punidos. Todos! Sejam eles, directores-desportivos, médicos, ciclistas de segunda linha ou mesmo as grandes referências da modalidade. Apanhem-nos a todos, principalmente os primeiros e os segundos, porque os restantes são pouco mais do que vítimas-cúmplices deste jogo de falsidade. Assim, será que o Ivan Basso esmagou a concorrência no Giro porque, entre outras razões, passou a adoptar o estilo e a cadência de pedalada do Lance Armstrong? Será que este conseguiu elevar-se ao estatuto de mito porque foi, de facto, o melhor e mais profissional de todos os ciclistas da última década, ou será um atleta-mutante concedido em laboratório? O que faria Miguel Indurain atacar em alta montanha sentado no selim e queimar literalmente a resistência das bicicletas estáticas nos centros de medicina desportiva? E o Mercx, o Anquetil e o Hinault?…

Bem, há ainda outro assunto recente que me está a remoer: a suposta oferta indecente de Basso a Simoni, na etapa do Mortirolo, em que, segundo este, o camisola rosa ter-lhe-á sugerido deixá-lo ganhar a tirada troco de dinheiro. Simoni diz que é tudo verdade e que no próximo dia 5 vai a tribunal confirmar. Basso desmente, obviamente. Alguém está a mentir. E quem for, que motivos tem para o fazer? Basso, nº1 do pelotão internacional na primeira fase da temporada pós-Armstrong, terá realmente dificuldades financeiras ou será assim tão ganancioso? Ou foi para humilhar o seu adversário? E Simoni terá assim tão mau perder? Sejam quais forem as respostas, eu fico cada vez mais incrédulo quando sei de casos tais…

segunda-feira, maio 29, 2006

Sobral da Abelheira: Escaldante!

No rescaldo de uma semana inteira no estaleiro, a níveis físicos rasteiríssimos, a volta deste domingo estava a mesmo a prometer uma valente tareia. O percurso acidentado e o pelotão em grande forma deixavam antever que não poderia contar com especial clemência. Além de a Clássica do Sobral da Abelheira ser um agitado carrossel, com algumas subidas bem duras, a fase de grande apuro físico dos «internacionais» apontando para as grandes provas do ano – mas não só, os «nacionais» mostraram que também estão «finos» – eram duas certezas de que o andamento seria forte. Restava-me, então, decidir se tentaria segui-lo nos momentos de maior ímpeto ou se deveria optar por uma toada mais moderada, e aconselhável. Optei pela primeira, mais para ver até que ponto chegaram os estragos da maleita. Conclusão rápida: fizeram e bem! Bastaram poucos quilómetros e os primeiros apertões para ver que a coisa estava mazinha. E o calor infernal que se fez sentir aumentou ainda mais a dificuldade do teste.
Logo à saída de Bucelas, na subida da Chamboeira, a coisa começou a aquecer. Ainda com os Lagos a fervilharem nas pernas, o Freitas, que está a capitalizar o seu momento de grande forma, teve a primeira das suas inúmeras iniciativas para acicatar os ânimos no pelotão. Não satisfeito, repetiu na subida do Milharado… e depois em Pêro Negro, só descansando a seguir ao cruzamento de S. Sebastião. Por pouco tempo…
A partir do Livramento, foi o Nuno que tomou as rédeas. E não olhou a meios. Meteu andamento em todos os topos e aos poucos desfez o grupo, ao ponto que, logo nas primeiras rampas da dura subida do Sobral da Abelheira (1,5 km a 9%), só restavam os «internacionais». Aqui sentiu-se bastante o calor. Faziam sufocantes 36 graus. Terrível! O andamento foi bom (6 minutos a 178 bpm) – embora inferior a uma passagem que fiz em treino em meados de Março (5.48 m a 182 bpm) e ficou a compensação de ter correspondido satisfatoriamente, tendo em conta as minhas condições.
Os últimos 600 metros ainda em subida, até à Barreiralva, já se fizeram em ritmo de recuperação, e depois até à neutralização na Murgueira, onde uma aguadeira septuagenária teve a amabilidade de nos matar a sede…
De novo na estrada, rumo a Mafra e à complicada subida da Carapinheira, felizmente feita a ritmo de passeio. Todavia, o Freitas tinha reservado a cartada final na ligação Alcaínça-Malveira: lançou-se na descida, mas teve resposta muito atenta do Nuno e do Fantasma. Para mim, então, tinha chegado a hora da decisão: tentar ir ou ficar… definitivamente. A resposta tinha de ser rápida! Obviamente, optei pela primeira. A descida velocíssima de Alcaínça fez desde logo a selecção: quem se contivesse dificilmente conseguiria reentrar.
Entretanto, o Nuno/Fantasma apanham o Freitas no pequeno topo à saída desta localidade e este olhou para trás para ver quem mais é que viria. E eu – ainda a cerca de 150 metros – pensei que teria de fechar rapidamente o espaço antes do trio começasse unir esforços. O Carlos, o único que seguia comigo na perseguição (penso que o restantes, entre eles o Miguel e o Steven, ficaram surpreendidos com as movimentações e perderam o «timing»), percebeu exactamente o mesmo. Por isso, forcei e a recolagem foi bem conseguida, mas o meu companheiro deixou-se… ficar. Ainda mal refeito do esforço, junto-me ao trio e ouço o Nuno dirigir algumas palavras para o Freitas (que me pareceu, qualquer coisa como: «vamos passar à vez»). Mau, mau! O Garcia tomou o comando e o Fantasma tirou imediatamente o bilhete. E eu passei imediatamente para a ponta do elástico – que esteve teve mesmo a partir-se junto ao cruzamento da Abrunheira (ainda com o Nuno à frente) e depois à chegada à Malveira (já com o Freitas a trabalhar, na rampa do cemitério). Foram 2,5 km muito intensos (sempre acima das 175 bpm com «pico» às 185 bpm), a uma média de 30,5 km/h em subida! Estes dois homens estão muito fortes, por isso, nestas condições, ter resistido até ao fim foi muito positivo para mim.
O pior foi o resto da viagem até Alverca, «desgraçado» e sob um calor tórrido. Fui com o peso dos sapatos nas rectas e do corpo nas descidas. E fiz o Cabeço da Rosa em contagem decrescente… Ah, depois de parar para abastecer em Bucelas, à chegada a Vila de Rei, até o Salvador me alcançou – ele que vinha ficado para trás algures… perto de Mafra!
Pode ter havido um facto positivo com esta paragem forçada: a regeneração muscular após um período de fadiga que culminou nos Lagos. O objectivo é recuperar a forma e apurá-la… até 10 de Julho.

Na próxima semana, a volta que está prevista é a seguinte: Loures-Pinheiro de Loures-Lousa-Venda do Pinheiro-Malveira-Vila Franca do Rosário-Enxara do Bispo-Pero Negro-Sapataria-Póvoa da Galega-Vale S. Gião-Casais da Serra-Tesoureira-Arranhó-Forte de Alqueidão-Sobral-Arruda-Cadafais-Carregado-Vila Franca-Alverca-Tojal-Loures (aprox. 110 km)

Além disso, devido ao aumento da temperatura, a concentração nas bombas passou para 8h15, para sair às 8h30.

terça-feira, maio 23, 2006

Lagos de Covadonga - a crónica

Um pelotão de 1500 ciclistas à conquista de uma montanha verdadeiramente infernal: eis a Clássica Internacional Lagos de Covadonga 2006.
Tenho pela subida dos Lagos uma relação de amor-ódio. Porta de entrada nos famosos Picos da Europa, é a mais espectacular e exigente de todas as que já subi – e não foram poucas, todas com aura mítica: Tourmalet, Aspin, Mont Ventoux, Galibier, Aubisque, Marie Blanque, Croix de Fer, Luz Ardiden, Deux Alpes, entre outras. Confronta-nos com o antagonismo brutal entre o cenário natural idílico e a dureza tenebrosa das rampas que separam, pouco mais de 12 km, o Santuário de Covadonga e o tranquilo Lago Ercina, o segundo e mais elevado, a pouco mais de 1100 metros de altitude.
A cada ano que a visito – e é já o quarto –, a montanha parece-me mais bela e arrebatadora. Na véspera da prova, o tradicional reconhecimento de carro, aviva-me sempre a lembrança do primeiro dia, aquele de Maio de 1998, em que disse para mim próprio que ainda não estava preparado para conseguir vencê-la. E não consegui!
Agora, oito anos volvidos, e apesar da rodagem «internacional», aquela montanha continua a fazer-me calafrios e a sofrer como, até ver, nenhuma outra. O meu calvário chama-se Huesera – uma rampa de 800 metros a 14% de inclinação média, que se enfrenta depois de 5 km que não baixam dos 9%, e que precede mais 6 km que misturam passagens a 13-14-15 e duas descidas curtas e vertiginosas, que passam num ápice. Lá, como alguém disse, deparamo-nos com «a verdadeira essência do ciclismo». O cenário é sempre igual: corpos curvados sobre o guiador das bicicletas, pedalada lenta, seca, muito suor e sofrimento. O que diria o «grande» Miguel Indurain, cuja presença à partida de Cangas de Onis era inspiradora, se me visse nestes propósitos?!
Mas a Clássica dos Lagos é mais do que a subida final. Muito mais. Desde logo, o Mirador del Fito, logo aos 8 km de prova. Uma subida de 10 km a 5% de média, digamos, para abrir a «caixa». Logo nas primeiras rampas, o pelotão alonga-se na estrada sinuosa e eu tomo o pulso à minha condição (pulso não foi bem, já que o meu Polar deixou de funcionar e fui «por sensações» a prova toda!), impondo o ritmo do quinteto de portugueses. A saber, os Pina Bike: Ricardo Costa, Luís Freitas, Nuno Garcia, Miguel Marcelino; e o alentejano de Vendas Novas, Jerónimo, que, já batido nestas andanças, desde cedo encontrou o seu próprio passo para melhor gerir o esforço. Os Pina Bike mantiveram-se juntos e sensivelmente a partir de meio da subida, o Miguel e o Freitas renderam-me no comando das operações, este último a deixar desde logo a ideia de estar em grande forma – só podia para não se resguardar nem a subir! De qualquer modo, o ritmo foi moderado, mais do que o do ano passado, em que fizemos cerca de 2 minutos menos.
Depois de «coronar», como dizem os espanhóis, seguiu-se longa e perigosa descida até à costa do Cantábrico, às suas praias frias e desertas, e ao típico sobe e desce «rompe piernas», a recomendar muito tino no ímpeto. Foi o que parecia não ter o nosso companheiro Freitas «Durão» – mas deveria ser apenas e mais um reflexo do seu estado de grande vitalidade física. Prontamente aconselhado pelos «mais experientes», voltou ao conforto do seio do pelotão, onde os cinco se refugiaram até à subida do Ortiguero, com cerca de 4 km a 5% – uma espécie de Mata (Arruda), para quem conhece.
Entre o Mirador del Fito a Posada, onde se inicia a gradual ascensão, fez-se uma média de 36,5 km/h – nada que impressione quem está habituado a cavalgadas domingueiras com os «nacionais» do Pina Bike!
Quando a inclinação aumentou, o andamento baixou bastante – sinal que o grupo não era forte a subir. Então foi um espanhol com o estilo do Nando que fez a vez do Miguel (versão 2005), impondo um ritmo muito forte para todos os elementos do grupo. Nem todos, os Pina Bike resistiram e muito antes do cume juntaram-se à frente. O meu trabalho pode ter-me custado alguma energia preciosa…
A partir daqui, uma longa descida (15 km) com falsos planos a exigir «pedal» e depois o troço de ligação (8 km) até Covadonga, início da subida final para os Lagos. A média na descida rondou os 42 km/h e depois até Covadonga os 25 km/h, altura em aproveita habitualmente para restabelecer energias e preparar-se psicologicamente para a duríssima montanha.
Finalmente, os Lagos! Primeira rampa com mais de 10%, logo para abrir as hostilidades. Ouço o Freitas dizer que iria meter o seu ritmo e parecia ter a companhia do Miguel, que mostrava algum receio das suas capacidades. Eu também encontrei o meu ritmo para a primeira parte da subida, mais rápido que este duo, enquanto o Nuno – que se tinha atraso cerca de 20 segundos no reabastecimento antes da subida – vinha em recuperação. Constatei isso na primeira curva em cotovelo. O meu andamento foi muito regular durante os primeiros 5 km, quando a inclinação média raramente baixa dos 9%, mas na iminência da Huesera e do esforço adicional que é exigido, baixei ligeiramente o ritmo para tentar passar melhor. Nessa altura, o Nuno recuperou grande parte da desvantagem e aos 200 metros daquela rampa infernal (troço de 800 metros a 13-14-15%, num km a média de 13,8%) passou por mim e foi… embora. Paulatinamente, como se faz naquele local, ganhando metro após metro. À saída da Huesera senti que estava «acabado» para o resto da subida, a não ser que a inclinação baixasse – o que não acontece, se exceptuarmos as duas descidas rápidas que não permitem reencontrar o ritmo. Assim, os restantes 5 km foram sempre em perda, com algumas passagens de grande sofrimento. Esta subida é sempre um calvário! Atrás, sem que lá à frente fosse visível, o Freitas tinha deixado o Miguel e estava em nítida recuperação.
O Nuno fez uma excelente subida e chegou ao final com 2 minutos de vantagem sobre mim e o Freitas 1 minuto e uns pozinhos depois. Este surpreendentemente, admito-o! Foi grande a prestação do nosso companheiro Durão, demonstrando que o trabalho de casa, durante 15 dias de férias, foi muito bem feito. O Miguel atingiu o alto cerca de 2 minutos depois do Freitas (sensivelmente!) e o Jerónimo alguns minutos depois, também eles realizando óptimos desempenhos…
Próximo encontro, dia 10 de Julho, na Etapa do Tour.

segunda-feira, maio 15, 2006

Só paramos aos 40 km/h de média

As voltas domingueiras da malta do Pina Bike estão assim: anda-se cada vez mais depressa e a malta gosta à brava! Desde que seja sempre a rolar, claro…
Ontem, para não fugir à regra das gloriosas tiradas planas, foi dar à corda praticamente desde Loures e durante mais de 100 km/h, perfazendo uma velocidade média que andou muito tempo em cima dos 34 km/h! Meus senhores, é recorde!
O vento estava de feição, fraco como se quer, e o pelotão bem recheado de insaciáveis devoradores de asfalto. Aí está a garantia de muito peso sobre os pedais. Por isso, depois do «aquecimento» na variante de Vialonga deu-se gás de Alverca a Vila Franca, onde houve direito a breves segundos para respirar, logo se metendo novamente o comboio a mais de 40 km/h em direcção ao Porto Alto.
O maquinista (perdão!) de serviço foi o Freitas, que não perdeu tempo a experimentar as forças para os Lagos – e são muitas, provando que o estágio de preparação para Covadonga está a dar os seus frutos. O nosso Durão está em alta e meteu passo sem esperar grande colaboração.
Enquanto à cabeça do grupo, os roladores se acotovelavam por uma oportunidade de ajudar a não baixar a velocidade – tarefa dura a 40 km/h –, eu apercebia-me de quão é bom andar quase sempre na cola do pelotão! Na Recta do Cabo foi-se passando, à vez, pela frente, mas quando chegou a minha já estávamos no Porto Alto. Ora bolas, que mal calculado! Aliás, foi dia de coincidências felizes, pois a situação repetiu-se à chegada à antiga Estalagem do Gado Bravo, mas desta vez porque o Nando decidiu quebrar a ordem pública. O desabafo do Pina prova que vinha com atenção: «Este gajo está cheio de sorte hoje»!
Ainda bem, pois no circuito Alverca-Porto Alto-Benavente-Estalagem, a locomotiva Pina Bike realizou a impressionante média de 35,5 km/h. Eu nem com uma pedalada contribuí!
Logo a seguir, a passagem pela Ponte de Vila Franca teve o tradicional apertão. O Miguel saiu em antecipação, mas ficou ao alcance. Uma vez feita a junção, o Freitas e o Nuno Garcia dispararam até ao topo. Destaque para o João entre os «nacionais», que, de resto, esteve em muito bom plano durante toda a volta, no seu estilo característico de gerir o esforço a seu bel-prazer, levando quase sempre para casa a sensação do dever cumprido…
A partir de Vila Franca, o ritmo foi mais moderado. Deu até para conversar, imagine-se! E para ver a paisagem… urbana. Chegou-se então a Sacavém e na iminência da subida para a Apelação tomaram-se posições na frente do pelotão. E começou a ladainha dos roladores, antevendo a dose de sofrimento que os espera. Puro engano. Os «internacionais» não se mexeram e o grupo foi subido a passo comedido, com o Freitas no comando – o que aliás é a melhor prova que a toada era inofensiva. Aliás, voltou a dar para trocar algumas piadas, por isso está tudo dito!
Assim, foram os homens da pedalada rija que mudaram o ritmo, já à entrada da Apelação. O Fantasma, ele próprio! Mas também o Pina. O Samuel, mais levezinho, também respondeu. Mas todo o grupo reagiu com facilidade e já na recta final, sem ataques efectivos, o Freitas sacou do sprint… quase a seco. Irresistível! Até Loures, houve tempo para voltar à conversa e fazer o balanço de um dia de grande velocidade, mas sem grandes desgastes…

Notas de observador

Lá está! Voltou-se ao terreno plano, voltou a homogeneidade no grupo e com esta subiu o nível do desempenho colectivo. Logo, mais participação e divertimento. Pena que nas voltas mais acidentadas, tal não suceda – pelas razões sobejamente referidas. De qualquer modo, penso que os mais bem treinados devem reconhecer a sua parte de responsabilidade e adoptar uma toada mais moderada durante um pouco mais de tempo naqueles momentos em que é aceitável que o andamento seja «livre» (por exemplo, numa subida). E mesmo que o ciclismo seja mesmo assim…
Eu penso desta maneira, garanto, mas só poderei voltar a abordar a questão se for o primeiro a dar o exemplo.

sexta-feira, maio 12, 2006

Lagos de Covadonga - 1

A Clássica Internacional Lagos de Covadonga tem uma característica determinante que a diferencia das grandes provas do género, em Espanha e França, que já participei. A sua quilometragem é relativamente baixa (111 km), que acaba por torná-la bastante rápida… até à subida final.
Além da distância curta, esta Clássica tem outras especificidades, como o facto de a primeira grande subida (Mirador Del Fito, 9,3 km 5,7%, contagem de 1ª cat.) ser logo aos 8 km. Ou seja, sempre é cerca de meia hora de esforço intenso, e se formos a «tope», como dizem os espanhóis, pode representar uma factura demasiado alta, a pagar na subida final, dos Lagos.
E há outra questão: quanto mais depressa se subir El Fito, em grupo de melhor nível se fica a partir da descida. E quanto mais elevado for o nível do grupo que integremos, mais depressa rolará nos 40 km seguintes, em terreno praticamente plano. Por exemplo, no ano passado chegou a rolar-se a mais de 50 km/h.
Depois, a partir dos 63 km inicia-se a segunda montanha, o Alto do Ortiguero, uma longa subida de 14 km, embora só os último 5 km sejam mais difíceis (5%) – onde, em 2005, o Miguel, tal louco imprevisível, decidiu atacar o pelotão espanhol, desintegrando-o.
Uma vez no alto (77 km), seguem-se 15 km de descida, com alguns falsos planos, daqueles em que é preciso pedalar para andar depressa. Foi aqui que, no ano passado, debaixo de chuva, dois matulões roladores espanhóis, rebocaram o grupo em que eu e o Nuno Garcia seguíamos até ao do Miguel, alcançando-o praticamente, no final, perto da rotunda em que se faz a viragem à esquerda em direcção a Covadonga. Aqui, o Miguel assegurou, em definitivo, o cognome por que passou a ser conhecido, ameaçando seguir em sentido contrário – neste caso, de regresso ao local da partida (Cangas de Onis) -, desestabilizando por completo o pelotão, que entretanto tinha engrossado com a junção dos dois grupos. Daqui até ao início da subida dos Lagos são 7 km que devemos nos alimentar, repor forças e preparar a «psique» para a duríssima subida final. Esta, então, fica para outro dia…

Para já, fica uma imagem frequente nas altas... percentagens

segunda-feira, maio 08, 2006

Assalto a Montejunto!

Subimos o nosso Alpe D’Huez! Numa jornada longa e dura, a rondar 140 km e com ascendente acumulado próximo dos 2000 metros, o bem composto pelotão Pina Bike cumpriu o glorioso objectivo de ascender ao ponto mais alto na nossa região (650 metros). De resto, foi um verdadeiro assalto a Montejunto, pois o grupo dividiu-se entre duas das (quatro!) vertentes da serra: Vila Verde dos Francos e Pragança, embora por esta tenha escalado a maioria dos participantes. Apesar de ter havido, entre estes, quem não chegasse ao cume, estão todos de parabéns pelo esforço e abnegação demonstrados!
O trajecto de Loures até à base da(s) subidas(s) não é, de todo, um passeio. Até Bucelas e depois ao Alto de Alqueidão, a seguir por Merceana e Atalaia; e daqui para Vila Verde dos Francos, Vilar e Pragança, houve que vencer os obstáculos do terreno, ainda com a oposição do vento. Na subida do Sobral foi evidente o regime de gestão de esforço do pelotão, por isso com facilidade se poderia ganhar algum avanço. Foi o que aconteceu a quatro elementos: eu, Daniel, Salvador e o Tárcio. O quarteto passou destacado no Alto de Alqueidão, mas à entrada do Sobral juntava-se um grupo que, entretanto, seguia intermédio. Este pelotão, já com razoável número de unidades, desceu para a Merceana e subiu para Atalaia e Vila Verde dos Francos sempre compacto e a ritmo moderado. E só em Vila Verde dos Francos, altura em que o João, o Zé-Tó e o Samuel (creio que não falta ninguém…) iniciaram a subida para Montejunto, se juntaram os perseguidores. A cerca de 18 km até Pragança, o pelotão ficava novamente compacto.
Daqui até ao alto de Montejunto são cerca de 6 km a quase 8% de inclinação média – uma ascensão digna de alta montanha. As primeiras rampas são duras e fizeram a primeira selecção – naturalmente a maior –, isolando, na frente, um quarteto composto por: Nuno Garcia, Freitas, Carlos e eu. O Carlos foi o primeiro a optar por seguir no seu passo, mais tarde (bem mais tarde, mas ainda na fase mais dura da subida) o Freitas também cedeu, seguindo, eu e o Nuno, juntos até muito perto do alto, à última curva, altura em que ele arrancou, de forma perfeitamente irresistível, para o final, deixando-me sem qualquer capacidade de reacção. A diferença entre nós acabou por ser significativa, tendo em conta que faltavam pouco mais de 100 metros. Para dar melhor ideia, foram cerca de 30/40 metros ou 15 a 20 segundos. Grande demonstração de força do Nuno, a provar que está de regresso à boa forma, em vésperas dos Lagos de Covadonga!
O Freitas chegou pouco depois, também ele efectuando uma excelente escalada, mais tarde o Carlos, depois o L-Glutamina e o Pina, e a fechar o grupo de cavaleiros do asfalto que tocaram o céu: o Tárcio (grande aquisição para o grupo!), o Luís e o Fantasma. Sem esquecer o João, o ZT e o Samuel que escolheram ascender por Vila Verde dos Francos. Grandes! Menção honrosa também aos que preferiram ficar na cota do quartel. Enorme jornada de ciclismo!

Notas de observador

Ontem foi dia de curiosa aferição. O Nuno Garcia chegou de longa ausência (pelo menos, intermitente) e ainda sem ter dado mostras de estar em boa forma, teve um excelente desempenho em Montejunto, com a agravante (no meu caso) de me ter deixado «pregado» na fase final da subida, após uma aceleração à «pro». Então, este sucedido pode despoletar a seguinte questão: o que faz um indivíduo com muito menos quilómetros e um programa de treino menos consistente, digamos, estar ao mesmo nível (ou melhor, na situação de ontem) dos que o têm? As respostas podem ser várias, mas procurando ser o mais objectivo possível, creio que existem factores que têm a ver com o «histórico», em que se incluem as suas características atléticas muito bem adaptadas ao exercício específico de subida, o esforço dispendido por ambos ao longo do percurso e, no meu caso pessoal, os condicionantes do normal cumprimento do plano de preparação, que, até prova muito mais evidente de estar errado, não irei alterar um milímetro. Ou seja, ontem ele esteve muito bem, perfeitamente irresistível, e eu igual a mim próprio.
O mérito do Garcia é ainda maior, uma vez que o tempo de subida, no meu caso, foi cerca de 1.30 m (23.07 m) inferior ao anterior melhor registo (realizado já na segunda-feira transacta). Por isso, considero que fiz uma boa subida, dentro do previsto, sendo esta de Pragança, para mim particularmente desconfortável, já que as suas elevadas percentagens não permitem, como tanto «preciso», manter rotação de pedalada alta, que aqui é, em média, 60/65 rpm, quando normalmente, em montanha, ronda 75/80. A prová-lo está o regime cardíaco médio (171): alto não tanto como se tivesse tido… mais força para o elevar a regimes «competitivo» (perto das 180) – o que não foi possível (nem é, para mim) numa subida tão inclinada.
Característica ou defeito? Penso que mais a primeira, embora a força também se optimize através de treino específico, o que é uma questão a rever (embora todos os anos o faça no início da temporada. Mas depois…), não sendo eu propriamente um ciclista leve (73 kg, peso de forma).
Mas há outros factores. Entre eles, a inclusão desta etapa de Montejunto no programa de treino semanal e não como um objecto específico de performance, logo, tendo chegado a domingo com toda a carga de trabalho da semana (e das anteriores) nas pernas. Este ano, só sucedeu o contrário em duas ocasiões: Évora e Fátima.
Mais importante – para mim, é claro! – é que os indicadores de forma são favoráveis para o grande objectivo da temporada: a Etapa do Tour. E são eles: desenvolvimento da capacidade para manter regimes muito próximo do limiar anaeróbio durante longos períodos de tempo – estamos a falar de três subidas de alta montanha, com mais de 1h00 de escalada! – e ainda muito bom endurance de base para vencer mais de 7h30 de bicicleta. E pelos indicadores, parece-me que estou no bom caminho... A ver vamos, dia 10 de Julho!
Nuno, caro amigo, mantém a frontalidade! A primeira «batalha» trava-se já no próximo dia 20, nas rampas da Huesera, mas a maior de todas será nas 21 curvas do Alpe D’Huez.
Grande abraço e muito obrigado pela consideração!

segunda-feira, maio 01, 2006

Alteração à Clássica de Montejunto

Por questões logísticas, a Clássica de Montejunto, a realizar no próximo domingo, vai sofrer uma alteração importante, não terminando, como de previsto, no alto da serra, para acabar, como todas as voltas habituais, em Loures e arredores. Deste modo, o percurso será modificado, seguindo em direcção ao Sobral (26 km), descendo depois para a Merceana (36 km). Daqui segue para a Atalaia (42 km) e em direcção a Vila Verde dos Francos (45 km) e aí, em frente para Vilar (48 km), Martim Joanes (52 km) e finalmente Pragança (60 km), onde se inicia a subida, atingindo-se o alto de Montejunto (antenas) com 67 km. A descida faz-se pela vertente de Vila Verde dos Francos e o regresso pelo percurso inverso, num total de 120 km… e muitas dificuldades!

A propósito de dificuldades, parece que foram estas que motivaram a debandada quase geral do pelotão durante a Clássica da Ericeira (domingo), à passagem por esta vila, com mais de um terço do percurso ainda por cumprir. Uma atitude que só se explica com a objecção a tudo o que não seja a rolar ou a descer. De qualquer modo, o traçado desta volta, embora acidentado, não é, de todo, «intransponível», o que leva a repensar seriamente a viabilidade de provas domingueiras que não sejam sempre (ou quase) em terreno plano. E nada melhor que comparar a atitude desta semana com a da última, na Ota. Assim, ficam os bons exemplos dos bravos que, à excepção dos ditos «profissionais», realizaram o percurso na íntegra: Luís, Salvador, Carlos e o «Coloured». Certamente, terão marcada no corpo a dureza do Muro de Montelavar, mas também a têm no espírito, como distinção da sua capacidade de sofrimento, coragem e superação. O meu aplauso!

Hoje, contra todas as previsões de treino, acabei… em Montejunto. Porquê, podem perguntar? Principalmente, no dia seguinte a uma volta empenhativa, que deixou marcas de fadiga – afinal, para mim, no domingo, foram mais de 140 km, 35 dos quais antes de me juntar ao grupo em Loures.
O principal (ir)responsável: eu. Claro! Mas porque fui na conversa de outro ainda mais… o Freitas. O que ficara combinado era uma voltinha higiénica a Torres (eu deveria atalhar caminho, por ficar fora do horário, já que trabalho em dia do… Trabalhador), todavia o telefonema madrugador, ainda eu estava a sair de casa, alterou radicalmente os planos. Chegara a notícia que o Nando, o João e o Carlos estavam a caminho de Montejunto, e já subiam o Sobral. Nada a fazer para os interceptar; a não ser … de carro. O Freitas foi para Bucelas e eu (mais esperto, há que admiti-lo! Ehe!), fui pela A1 e só parei na Atalaia, alguns quilómetros à frente do trio, seguindo depois com eles em direcção a Pragança, por onde fizemos a subida – seria reconhecimento para o próximo domingo?
O desgraçado do Durão fez um contra-relógio louco, ainda se enganou no caminho subindo pela duríssima rampa do Avenal e só nos encontrou, já nós descíamos. Enfim… dureza não é nada para quem está habituado.
No meu caso, fica a certeza que deveria era ter juízo, pois as minhas pernas foram a arder pelos 15% acima – e mesmo sem forçar nada (mais também não podia!). Todavia, surpreendetemente fiz menos 1 minuto que a minha melhor subida por aquela vertente, o que é bom indicador de forma (mesmo com vento favorável). O Carlos, mesmo a apalpar terreno (estreia por Pragança), deixou muito boas indicações para domingo. Estará como peixe na água…

terça-feira, abril 25, 2006

Fátima: a mística existe!

Sem autorização para sair do pelotão – foi sob esta directiva que decorreram mais de 120 km/h, entre Loures e Batalha, da Super-Clássica de Fátima, no último domingo, uma prova com grande tradição, que continua a acentuar a sua mística, devido, acima de tudo, ao fantástico percurso, com final apoteótico. Mas fossem estradas planas, topos ou colinas, a ninguém foi dado mais do que poucos metros de vantagem antes de chegar a subida final para Fátima. Tal como na Clássica de Évora, o grupo assimilou muitíssimo bem que este tipo de voltas requerem uma abordagem «diferente» das tradicionais domingueiras, que o nível de exigência é maior, pois (quase) toda a gente pretende ter desempenho positivo ou quiçá superar-se, para isso treinando com mais rigor, como foi o caso.
Pois bem, esse empenho reflectiu-se no ritmo, que foi vivo desde o início, rapidamente fixando a média acima dos 31 km/h – no final, foi essa a minha. Até à subida do Alto da Serra, as médias parciais nunca baixaram dos 30 km/h, superando, como foi o caso de Alverca-Vila Franca, os 35 km/h. E com a maioria dos elementos do pelotão a dar o seu contributo, embora, compreensivelmente, uns mais que outros.
Nas primeiras dezenas de quilómetros toda a gente parecia estar de sobreaviso, procurando evitar distracções que pudessem causar cortes. Talvez, por isso, a passagem pelo empedrado de Vila Franca (local em que habitualmente sucedem fracções importantes) tenha sido das mais «rijas e compactas» dos últimos tempos. Depois, mesmo sem uma organização férrea no comando do grupo, este foi sempre em bom andamento, nem que fosse só para tirar ideias a quem as tivesse de uma eventual fuga. De resto, os roladores bem o tentaram, principalmente no último terço da prova, no planalto de 35 km que se segue ao Alto da Serra e a descida para a Batalha. A primeira dificuldade da tirada foi, como sempre, o Alto da Serra (2 km a 4,2%). Primeira oportunidade para se começar a abalar a sólida coluna que se vinha mantendo, e também para acentuar desgastes. Para mim, chegara a hora de passar ao trabalho…
Objectivo nº1: meter as pulsações dos mais fortes no «amarelo-alaranjado», sem provocar efeitos catastróficos aos restantes. Penso que bem conseguido. Nota adicional: fiquei surpreendido com a resposta deveras positiva do pelotão, que não cedeu um milímetro, não havendo lugar a poupança de esforços, com a consciência que ficar para trás, com as «trutas» à frente seria sinónimo de um resto de prova penoso. Nesta altura, apenas o Abel se ressentiu, abrigando a que após a subida se refreasse o andamento.
Depois, a longa ligação, praticamente plana, até à Batalha foi tranquila, embora se tenha mantido a máxima de ninguém ter ordem para sair do pelotão. Nem mesmo quando, por vezes, se registaram alguns cortes ligeiros enquanto se esperava pelo Abel e depois pelo Steven, ambos em dificuldades. Nestas ocasiões, mesmo com os roladores a puxarem da artilharia pesada, a «caça» foi profícua e rapidamente se fecharam os espaços. Viu-se o Fantasma (que até aí se mostrara bastante reservado, em nítido resguardo), o Daniel e o Casaínhos passarem pela frente, mas sempre desencorajados pela reacção eficaz do grosso do grupo.
Chegava então a hora da verdade. A ligação entre a Batalha e Fátima. A minha decisão de impor um ritmo forte desde o início da primeira subida estava tomada há muito tempo, principalmente depois de, à excepção do Alto da Serra, não se terem registado situações que tivessem acentuado o desgaste nas principais figuras – por exemplo, ter de perseguir para anular fugas. E segundo: porque tinha ponderado sobre os efeitos pessoais e colaterais, depois de fazer as contas às forças, distâncias e tipo de terreno, expondo-me a contra-ofensivas das principais figuras, nunca subestimando a capacidade.
Por isso, não deixei sequer começar a subida para passar para a frente, e quando a estrada empinou encontrei rapidamente o andamento que mais me convinha. Nesta altura, o pulsómetro deixou de interessar. Após, as primeiras centenas de metros, certifiquei-me de quem me seguia: Freitas e Miguel (naturalmente) e surpresa (!!!) o Vítor Correia. Espantoso! Mais ninguém. E que seria feito do Carlos? A segunda vez que olhei para trás, pouco tempo depois, só restavam os dois co-equipiers. A cerca de 300 metros do alto, forcei um pouco e a respiração do Freitas tornou-se mais ofegante. Deixa cá, experimentá-lo! Dois carretos abaixo, mudança brusca de velocidade e inesperadamente quem pagou a factura foi o Miguel. Nos primeiros metros da descida olhei variadíssimas vezes para trás para ver se era mesmo verdade. Confirmado. Nestes 2,4 km de subida (4,8%) fiz uma média 177 pulsações (22,4 km/h).
A descida (que não é só…) não foi menos intensa (40 km/h e 164 ppm). Tinha de ser assim para manter o Freitas no «vermelho». E quando chegou a primeira rampa da segunda subida, esta mais acentuada (6,5% em 2,3 km), aumentei ligeiramente o andamento e logo após 300/400 metros, depois da passagem pelas casas, o Durão cedeu, abrindo-se rapidamente um fosso entre nós, que, no alto, segundo informações da ardósia do pai do Miguel, já seria de cerca de 1,30 m. Significativo. Nestes 2,3 km fiz uma média de 183 ppm e 17,8 km/h. E nos últimos 8 km (32 km/h) até Fátima esgotei todas as forças que me restavam, mesmo tendo quase a certeza que a vantagem angariada na subida dificilmente a perderia – aliás, ainda ganhei quase 1 minuto.

Destaque ainda para a prestação do Carlos, terceiro, ultrapassando o Miguel, que estava em perda, e para um grupo coeso composto pelo Pina (numa subida muito controlada e num final em grande estilo), Daniel (enormes progressos, inclusive a subir, pois só assim se compreende chegar, por exemplo, com o Zé-Tó (no seu estilo metódico e cerebral, de trás para a frente, controlando sempre o coração e as sensações musculares).
O Casaínhos, que muito trabalho durante toda a volta, pagou o esforço (embora, como reconheceu no final, tenha ficado aquém das suas expectativas), e o Fantasma deu um estoiro monumental ainda no início da primeira subida, a contas com caimbras – provavelmente devido a um início de desidratação pelo excesso de roupa quente que trazia vestido.

Nota final de solidariedade, primeiro para o L-Glutamina (Steven), cuja debilidade física devido a gripe prolongada não lhe permitiu resistir ao esforço, parando perto da Benedita; e segundo para o esforço dos mais veteranos: o Abel, que mais uma vez cumpriu com muita coragem, o todo o percurso; e também o Vítor, um fenómeno da natureza pela força que ainda revela, embora manchando o seu desempenho ao utilizar «ajudas» não regulamentares para terminar a prova. Pagou a factura pela loucura de querer estar à frente no início da primeira subida, onde nem sequer estava gente muito mais jovem e bem preparada, como, por exemplo, o Carlos.
Por falar nele, recordo as previsões do Homem do Talho, que surpreendentemente (para mim) acertou quando disse que um «nacional» se intrometeria entre os «internacionais»: o Carlos. E se fosse mais ambicioso, previsivelmente o atraso de 5 minutos no final seria bem menor. Já tive oportunidade de lhe dizer: porque não experimentar agora um patamar acima? Sem necessariamente seguir com os da frente, mas também não ficar tão… atrás. É possível manter a distâncias para os mais fortes, gerindo convenientemente o esforço, e depois colher eventuais dividendos de alguém que «quebre». De facto, isso aconteceu agora com o Miguel, mas, neste caso, foi uma excepção. Outras oportunidades não irão faltar…

terça-feira, abril 18, 2006

Fátima já fervilha

A Super-Clássica de Fátima, no próximo domingo, já fervilha. Se a meteorologia ajudar, estarão reunidas todas as condições para ser uma jornada de ciclismo memorável.
Primeiro: o percurso, à medida dos roladores mais fortes, mas com um ponto de selectividade nevrálgico instalado estrategicamente nos últimos 15 quilómetros, após 120 km de pedal. Aqui, a seguir à Batalha, jogar-se-ão todos os trunfos, mas só alguns chegarão com forças suficientes para tentarem fazer a diferença. A subida para Fátima não é fácil, mas também não tem dureza extrema. No fundo, são duas subidas… numa: a primeira com quase 3 km e inclinação média inferior a 4% - ou seja, suavezinha, mas capaz de deixar «pendurados» os mais fatigados. Depois desta, há uma descida curta mas acentuada que antecede a ascensão mais complicada, com 3,5 km a mais de 5,5%, ou seja, também não muito dura, mas incluindo cerca de um 1 km acima dos 7%. Aqui sim, em caso de luta acesa, poderão haver diferenças entre os mais fortes. Todavia, a partir do final da subida principal, nos 3,5 km seguintes ainda restam alguns topos exigentes, antes de um falso plano descendente nos derradeiros 4 km.
O ano passado senti-me bem e fiz uma óptima subida, chegando isolado a Fátima – o Nuno Garcia foi quem mais se aproximou mas cedeu após o «gancho», na parte mais íngreme da subida. Na altura, o Miguel estava ainda à procura da boa forma, mas este ano surgirá bastante melhor apesar da paragem forçada por lesão, praticamente na antecâmara dos Lagos de Covadonga, tal como eu e o Freitas. Em relação a este, qualquer semelhança entre o ciclista de 2005 e o de agora é «mera coincidência». Caso resista, na subida final, a todos os ataques como o tem feito esta temporada, terá toda a vantagem à chegada a Fátima. E concerteza contará com a preciosa colaboração do seu co-equipier – e vice-versa. Além dos favoritos, poderão haver «outsiders», como o Carlos, mas ainda está para provar a sua capacidade de enfrentar os momentos de maior «frisson». Assim, vamos ver como correm as coisas, sabendo que a «concorrência» está muitíssimo forte.
Por falar em concorrência, é de prever que o pelotão esteja bastante mais competitivo e homogéneo este ano. Pelo menos, é que deixa antever o cuidado que muitos elementos têm empregue na preparação da tirada. Como referi, na crónica de Belas, acumularam-se quilómetros e trilharam-se caminhos tortuosos nos últimos dias com o objectivo para afinar a forma, mas teremos de aguardar pelos resultados dessa aplicação no treino, embora seja certo que apenas um grupo muito restrito resistirá às acelerações finais. Aqui, certamente, não vai haver surpresas. Mas os dados estão lançados!

domingo, abril 16, 2006

Sensações diferentes em Belas

Entre muitas ausências e sequelas dos excessos da sexta-feira Santa, a Clássica de Belas acabou por se transformar em treino competitivo… e restritivo. Nem mais nem menos. Aliás, a presença inesperada do Hélder foi precisamente ao encontro aos meus objectivos, pois saíra de casa com o propósito de fazer algum trabalho de intensidade e rotação em subida, forçando em quase todas. E ainda mais específico ficou cariz o treino/volta quando quase todo o grupo, em Pêro Pinheiro, decidiu rumar a Loures, por Negrais, abdicando de concluir o traçado como ele está delineado – por Belas. Perante este facto novo, eu, o Freitas e o Hélder decidimos seguir em frente – a bem da honra dos verdadeiramente duros.
Para mim, foi um óptimo teste. Acima de tudo, porque deu, como poucas vezes esta temporada, para aferir sensações e a capacidade de resistir/reagir, seguindo como referência «outro» andamento, neste caso do Hélder – muitíssimo forte. Neste aspecto, o treino foi muito frutuoso. Mas não só. Por várias ocasiões, nomeadamente em Cheleiros e nos difíceis topos entre P. Pinheiro e Belas, o andamento imposto pelo Hélder foi pesado, bastante duro, obrigando-me a seguir a roda. Considerando esta nova ordem de forças, pouco habitual, deu para tirar algumas conclusões importantes. Por exemplo, a falta de referências que tem quem mete o passo à frente nos momentos altamente selectivos. E consequentemente, a vantagem de ir atrás, de poder controlar o ritmo, etc.
Mas obviamente não foi só andar na roda. A partir de Belas (no topo) e até à subida de Caneças, marquei o andamento, para evitar que este baixasse muito. Mas o Hélder tomou a dianteira, voluntariamente (uma maravilha!), logo que se iniciou a subida de Caneças, e já na parte final fiz a primeira mudança de velocidade para sentir o pulso dos meus companheiros – embora tenha sido refreado pelo semáforo vermelho lá no alto. Assim, foi em Montemor que se jogaram os trunfos. O Hélder, sempre confiante na sua força física – e é muita, é verdade! –, entrou em 52 e quis mantê-lo (demasiado optimismo!), o que o colocou antecipadamente no «red line». Quando finalmente meteu a «pequena» já era tarde: estava agora sob pressão e foi só escolher a melhor altura para fazer a aceleração decisiva. Saí bem, em rotação, e com reserva de energia comecei a meter andamentos, todavia, uma súbita mudança do vento forçou-me a tirá-los. Mesmo assim, o espaço aberto – para o Hélder, para o Freitas nem pensar! – foi suficiente para o obrigar a uma perseguição desenfreada na descida.
Não estarei a esquecer-me de alguém: claro, do Freitas! Igual a si próprio. Em excelente forma, imbatível neste terreno, embora sempre com a mesma atitude passiva (mas racional) de seguir sempre a roda certa. É a vantagem de estar lá todos os domingos… E depois na descida fez a diferença… embora com alguns «truques» muito seus!

Por último, ressalvo para o cuidado a todos os títulos excepcional com que está a ser preparada a Super-Clássica da próxima semana, a Fátima. Nos últimos dias, diversos elementos do nosso grupo desdobraram-se em treinos específicos, de longa distância e alguns em subidas selectivas (Montejunto e Cabeço da Rosa), a «solo» ou em secreta companhia, tudo com o objectivo de apurar a forma, escondendo o jogo do «adversário». Aguardemos pelos resultados!

sexta-feira, abril 14, 2006

Para Santarém... de comboio

Foi interessante e proveitosa a longa jornada velocipédica que realizámos ontem, com Santarém como epicentro, num total de 150 km. Super! O pelotão à partida não era extenso (apenas 9 unidades) e apenas um quinteto cumpriu o percurso na íntegra – eu, Freitas, Daniel, Luís e Carlos (da Póvoa). Embora tenham alinhado à partida, o L-Glutamina, ainda a recuperar de uma gripe, ficou no Carregado, e no Cartaxo foi a vez do Miguel, do Carlos (do Barro) e de um outro elemento, darem meia volta às montadas.
Fica para a história o bom andamento (média 31 km/h em Alverca), a organização e coesão no (pequeno) grupo que perdurou até final – antes, também o Carlos e o Miguel tinham contribuído para levar o «comboio» a ritmo de cruzeiro –, num percurso muito pouco acidentado, quase plano, que não provocou grandes desgastes.
A única dificuldade, além da longa distância da tirada, foi a entrada em Santarém, uma subida que, na parte digna desse nome, é mais curta do que pensava (1,1 km), apesar de ter inclinação apreciável (6-7%). Aí deu, naturalmente, para limpar os carburadores (como diz o Fantasma – que falta!), com o Durão Freitas a não ceder um milímetro, confirmando, mais uma vez, a sua excelente forma, depois do susto do último fim-de-semana. Aliás, felizmente parece que tudo não passou do (mau) resultado de uma semana de excessos (de carga). As boas sensações chegaram com o passar dos quilómetros e foi vê-lo de alma nova, que tão pesada tinha amanhecido – e pior ficou quando furou um pneu à entrada de Vila Franca.
Grande tirada a do Daniel, que se resguardou na primeira metade do percurso (até à subida de Santarém – que fica para contar no final desta crónica!), e regresso foi presença assídua e muito colaborante na frente do grupo – inclusive muitas vezes no seu estilo característico, com o Freitas a refrear-lhe sempre o ímpeto. Aliás, assim era recomendável, uma vez que o Carlos (da Póvoa) vinha muito justinho de forças e cedia sempre que a velocidade aumentava. De qualquer modo, também enorme prestação a dele, tal como a do Luís, que está em crescendo de forma.
Por último, deixo então a incidência do dia: a entrada de leão do Daniel na subida de Santarém… com saída de cordeiro.
O nosso homem do martelo andava já há alguns quilómetros intrigado com a chegada da subida de Santarém. E quando esta chegou não fez por menos, entrando de rompante na zona em que a inclinação aumenta (o último km) – segundo disse depois, «para aproveitar a embalagem!» – e tomou a dianteira com o ferro todo metido. De tal forma, que, em 200 metros, abriu um espaço de 10/20 metros para mim e para o Freitas (e até entrámos bem forte na subida), mas 200 metros depois, obviamente, já estava a patinar. E a cerca de 500 metros do alto deu o estouro-mestre. Sem forças, até final perdeu, sem exagero, 200 metros. Justificação: não conhecia a subida. Pois! Disse mais: como não consegue subir em rotação, tem de meter os carretos… mais à direita. No entanto, foi só mais uma «lição» do «curso» que está a tirar, até ver com fantástico aproveitamento. E uma alma do tamanho do mundo… Domingo há mais! Nos «picos» de Belas. Ui, tanta dor!

domingo, abril 09, 2006

Ao ataque na Sra. do Ó

Definitivamente, acabou o tempo de glória dos roladores. Agora mandam os que sobem melhor. Na Clássica de hoje, a subida da Senhora do Ó revelou-se altamente selectiva, proporcionando momentos de grande espectáculo. Desde a Carvoeira, o ritmo foi sempre intenso até Mafra, e depois de uma ligeira recuperação na passagem por Mafra, terminou-se em grande estilo na subida da via rápida até à rotunda da Carapinheira.
Desde Loures, porém, a toada foi moderada, apenas animada pelas iniciativas do inconformado Daniel, que andou quase sempre escapado, e do Samuel, que finalmente mostrou estar em boa forma, liderando quase sempre o pelotão entre Mafra e a Ericeira.
Depois, já se disse, a subida da Sra. do Ó abriu as hostilidades. E começou de forma curiosa: Miguel, Daniel e Carlos entraram ligeiramente destacados, depois de se terem adiantado na Foz do Lisandro, e o Freitas em posição intermédia. (Pareceu-me um pouco atrapalhado, sem a sua referência preferida, já que eu tinha ficado um pouco para trás na descida anterior). Recuperei sem forçar - pois a subida é muito acentuada nos primeiros dois quilómetros -, mas depois de me juntar ao Freitas, decidi acelerar e não parar antes da Carapinheira: a subida tem 6 km e até à Carapinheira são mais três.
A resposta do Freitas foi imediata, resistindo muito bem ao andamento que impus na parte mais difícil da subida, e depois nas diversas rampas, intercaladas, que completam a longa subida até Mafra. Aqui rendo, uma vez mais, homenagem ao espírito de sacrifício do Freitas, um verdadeiro Durão, que senti, por diversos momentos estar no red line, mas resistiu estoicamente. À entrada de Mafra, quando a inclinação baixou, ele ainda tentou demover-me das minhas intenções: «Como é já chega?!…», perguntou. Mas quando lhe disse que só parava na Carapinheira deixou escapar um palavrão daqueles…
Mas a subida teve mais protagonistas. O Miguel e o Carlos, na companhia do Zé-Tó (que foi interceptado a meio da subida e se juntou ao comboio), juntaram-se a nós à saída de Mafra – reconheço que fiquei surpreendido pela recuperação – e abordámos em quinteto a rampa da via rápida até à Carapinheira. Eu voltei a dar o mote, mas o Miguel respondeu muito bem e nos últimos 200 metros «rebentou» com a concorrência, fazendo-me suar as estopinhas para não perder o contacto – ao género do que sucedeu a semana passada em S. Pedro de Sintra. Mais ninguém resistiu, inclusive o seu co-equipier.
A volta acabou aqui… infelizmente. E prometia mais animação. Longa espera (a minha) pelos retardatários, que afinal seguiram em direcção a Alcainça devido ao cansaço; o Miguel continuou para Cheleiros (?) e os que restaram (Luís, Freitas, Daniel e Carlos) foram andando para os topos de Igreja-a-Nova, que acabei por fazer sozinho e em força, juntando-me ao grupo apenas à entrada da Malveira – mas até mais cedo do que esperava…
Finalmente, na Venda do Pinheiro, o Freitas, em dificuldades físicas, seguiu em frente para Loures, mas os outros acompanharam-me na longa descida para Bucelas, realizada em muito bom andamento, com quase toda a gente ao ataque. O Fantasma e o Pina, dois descedores de grande classe, iriam certamente gostar…

Notas de observador

1. Miguel, companheiro, descreve como foi a vossa subida (tua e do Carlos) na Sra. do Ó, cuja recuperação, admito, chegou a surpreender-me. É mais uma prova que estás em crescendo de forma, apesar dos empenos que, presumo, se devem a alguma falta rodagem. A única nuance foi o ligeiro alívio de força que eu e o Freitas fizemos na passagem por Mafra – mesmo assim não se pode considerar que tirámos tudo…

2. Tal como ao Miguel, destaco a excelente prestação do Carlos na Sra. do Ó, outro que está a dar cartas nesta fase – grande subida, sem dúvida! Então que lhe falta para estar ainda mais à frente? Penso que, além das reservas habituais, talvez a rodagem de «alta competição», ou seja, «estofo» para conseguir enfrentar os momentos de grande calor com os mais fortes.

3. O Freitas está bom! Por muito que sofra nas subidas, a sua atitude é fantástica. Nestas coisas das picardias das voltas, é um adversário a bater, mas, talvez por isso a minha estima e reconhecimento das suas capacidades e espírito de sacrifício são ainda maiores – a sua coragem está léguas da minha e eu também não gosto de ficar para trás. Hoje, porém, estava a acusar notoriamente o esforço dos treinos realizados durante a semana, principalmente na sexta-feira. Sei bem o que isso é, como tal aconselho-te a não forçares demasiado, sob o risco de te lesionares – as tuas queixas no extensor do gémeo são sintomas de fadiga devido à acumulação de esforço. Se esticas a corda durante a semana, já não a terás tão forte nas nossas «corridas» de domingo. E podes parti-la. Não esqueças que os Lagos estão à distância de pouco mais de um mês…

4. Há um facto que quero realçar dos picanços na descida para Bucelas, com o Luís (este apenas a tentar resistir), o Carlos e o Daniel, e que fiz questão de comentar com este último: a exposição ao choque e as suas consequências. Ou seja, ambos não se limitaram a seguir na minha roda, principalmente nos topos, lançando inclusive fortes ataques que proporcionaram despiques muito interessantes. Apesar do Carlos e do Luís não terem resistido mais após o topo da Chamboeira, o Daniel recuperou o atraso de cerca de 100 metros para mim no Freixial e não foi de modas, acelerou violentamente no topo do aviário como se acabasse ali - pensei eu. E a verdade é que pensou mesmo. Por isso, no topo do depósito de rações, este mais longo, acabou por pagar a factura – apesar de o ter estimulado a reagir. Mas valeu a pena, para mim e para ele… É assim quando todos se expõem ao desgaste e tentam a sua «sorte». Foi um final em grande estilo. Apesar de, em termos competitivos, talvez não seja a melhor estratégia para enfrentar «adversários» fortes – que o diga o nosso Durão! -, a verdade é que a coisa fica muito mais divertida. Ah! A força deste Daniel é impressionante!

domingo, abril 02, 2006

Sintra fantástica!

A abertura das Clássicas de Primavera, com uma sempre exigente passagem pela Serra de Sintra, foi provavelmente a melhor demonstração de que há memória de aproximação de «valores» entre os elementos mais empenhados e assíduos do grupo Pina Bike. Para alguns, este percurso tinha antecedentes traumatizantes. No início de Dezembro do ano passado, fizera estragos no cabedal de meio mundo, mas que, hoje, tiveram oportunidade de ajustar contas com os estigmas das subidas e alguns inevitáveis empenos. Inclusive os que menos se dão com as inclinações.
É verdade que houve diferenças. Obviamente nas subidas mais difíceis (S. Pedro de Sintra, Azóia e Várzea-Sintra) e também no selectivo final da tirada. Mas foram pouco significativas. E mais importante: ficou a ideia quase unânime que as sensações foram boas e superaram-se as expectativas individuais.
A subida Lourel/S. Pedro de Sintra abriu as hostilidades. O Miguel provou que está a caminho da melhor forma, a menos de mês e meio do início da temporada internacional, e deu o mote, principalmente na parte final da subida, imprimindo um ritmo muito forte. Foi a vez, este ano, em que fui mais intensamente solicitado em subida – mesmo que apenas 200/300 metros – o que é prova que o trepador louco imprevisível está de volta.
O Freitas, sempre resguardado, nunca perdeu terreno. De resto, no seu estilo peculiar, soube sempre levar a água ao seu moinho. Ali, na Azóia e na parte final. A excepção foi a subida da Várzea para Sintra - perguntem-lhe porquê?! Também ele está em grande forma, apontando baterias para o enorme desafio dos Lagos de Covadonga.
Do meu ponto de vista, o seu desempenho foi excelente, e a forma como aproveita a «boleia» nas fases em que teoricamente tem mais dificuldade não se pode censurar. E desta vez não precisou de quaisquer ataques. Resistiu estoicamente nas subidas e nas acelerações dos quilómetros finais e depois foi mais audaz na descida de Montemor, terminando isolado em Loures.
Depois de um treino suicida na sexta-feira, estou satisfeito com minha prestação. Ainda assim, acusei o cansaço, que me impediu de fazer mudanças de ritmo em alta intensidade, em subida, e manter andamentos muito fortes durante muito tempo. Hoje era impossível lançar um ataque de longe. Faltou-me força, essencialmente, quando mais precisava – no topo de Belas, em Caneças e em Montemor – e assim, à excepção da Várzea (e por pouco) nunca consegui distanciar o Freitas, como era meu objectivo. Mas teria sido necessário estar em pleno vigor (quiçá mais!) para o conseguir. Ou admitir essa impossibilidade em voltas com subidas tão curtas.
Aliás, devo reconhecer que a própria subida da Várzea foi bem elucidativa da capacidade do «nosso» Durão – já que foi a única vez que tomou a dianteira (vínhamos a recuperar desde o Cabo da Roca onde esperámos pelo último elemento e se aproveitou para urinar), assumindo as despesas – mais precisamente fê-lo a partir dessa altura. Depois, na Várzea, soube impor um andamento muito rijo desde o início, que me tirou ideias. Posso dizer mais precisamente que, quando ia na roda, tinha a sensação que o andamento não era assim tão forte – ou que já tinha ali passado noutro ritmo -, e que até se mastigava um pouco, mas que também que não conseguiria sair e fazer a diferença. Talvez sintomas da tal fadiga. No entanto, deixá-lo pregado nos últimos 400 metros serviu para fazê-lo beber um pouco do seu próprio veneno.
Outro elemento em grande forma é o Carlos. Fisicamente muito bem (% de gordura baixíssima), com excelentes aptidões de trepador, cedeu apenas em Montemor, quando a «coisa» se decidiu a três, depois do Daniel e do Fantasma não terem resistido às alterações de ritmo em Belas e Caneças. O Daniel teve a expressão que considero mais correcta para definir o rendimento do Carlos. «Ele não acredita nas suas potencialidades!». A questão é certamente mais complexa, mas, na minha opinião (à qual arrogo-me o direito de manter publicamente em segredo), não andará muito longe da verdade. E é provável que a confirmação possa chegar, em breve, quando ele menos esperar…
Enorme destaque também para o Daniel e para o Fantasma (ou será Falcão, pela forma destemida como desce), roladores por excelência, e que experimentaram muito boas sensações em terreno bastante acidentado. Restando esperar que outras figuras importantes, como o ZT e o L-Glutamina, apurem a sua forma, então teremos um pelotão ao nível mais elevado de sempre. Para a semana voltamos ao sobe-e-desce saloio, numa Clássica (da Carvoeira) que deverá ser tão ou mais espectacular que a de hoje.

P.S. A propósito, menção honrosa para a disponibilidade e elevado sentido de camaradagem do L-Glutamina (e depois do Salvador) em ajudarem o ZT, que se encontrava em notórias dificuldades na fase final. E também para o Luís, que tomou a iniciativa de, ainda em Colares, fazer o resto do percurso… no seu passo, «libertando» o pelotão. Também ele faz falta em grande forma. E já agora: o João e o Samuel, que a têm!