Espaço aberto à opinião dos ciclómanos sobre ciclismo. De simples entusiastas da modalidade aos que a praticam. Sítio de tertúlia, onde fluem conversas de ciclistas sobre ciclismo.
quinta-feira, agosto 31, 2006
Mobilização cresce para a Serra
O facto de haver a possibilidade de opção entre dois percursos, com índices de dificuldades distintos mas em cujos está presente o áspero fascínio de subir à Torre, permite a abertura a um leque mais abrangente de participantes. Por isso, o pelotão engrossa a cada dia, reunindo-se, assim, condições óptimas para que o próximo dia 10 seja uma enorme jornada de ciclismo.
Quanto ao alojamento e logística, o ideal seria que o quartel-general ficasse instalado no Hotel Alambique (telf. 275.774145 ou 96.977.7146), no Fundão, onde será a partida para os dois percursos. Os preços oscilam entre 27 euros (single) e pouco mais de 55 € (duplo). Todavia, a oferta hoteleira na região é vasta, principalmente na Covilhã, onde se pode obter preços mais variados e qualidade bastante aceitável (ex. Hotel Sta. Eufémia).
Quanto à logística, não deverá ser muito diferente da habitual (Évora e Fátima), ultimando-se esforços para garantir, pelo menos, um carro de apoio neutro, embora seja provável (e bom) que os acompanhantes (familiares/amigos) possam prestar, em algum ponto do percurso, apoio ao seu «respectivo».
Em relação à hora de partida (sugestão): para o percurso A (8h00) – o motivo de não ser mais cedo deve-se ao facto do pequeno almoço no hotel começar a ser servido apenas a partir das 7h30; e para o percurso B, quando o grupo A voltar a passar pelo local (frente ao hotel), estima-se que entre 1h45 e 2h00 depois de iniciar a etapa em direcção à Gardunha.
terça-feira, agosto 29, 2006
Enfim, as tertúlias!
Mais do que isso: algumas das afirmações, como a primeira, que refere que o Carlos terá sido «queimado», estão totalmente desprovidas de sentido, reflectindo uma análise ignorante do que realmente aconteceu. Por isso, não as considero merecedoras de reparo.
Surpreende-me apenas o gigantismo dos efeitos do que se passou no domingo. As críticas feitas por alguém que se esconde sob a capa de «Canibal» são, no mínimo, ridículas, de tão inversamente proporcionais ao que, de facto, é o ciclismo. Por isso, só poderão vir de alguém completamente equivocado, a quem sugiro que saia de cima dos rolos no fundo da garagem, procurando ultrapassar os traumas que o mantêm alheado do mundo real. No mínimo, que acompanhe mais de perto o ciclismo, nem que seja pela televisão.
Mas serei peremptório na resposta ao último comentário. Pois bem, alguém acredita que pode deixar de haver competitividade no grupo – que tem como consequência as «malditas» corridas? Mas se, porventura, acabar, com ela também o próprio grupo!
domingo, agosto 27, 2006
Enorme Montejunto!
A volta já se sabia difícil e foi ainda mais devido à forte nortada que soprava, por isso não se previa que o andamento fosse tão rijo logo a partir de Bucelas até ao Forte do Alqueidão. O Nuno Garcia deu o mote a seguir à Bemposta e o Freitas rendeu-o mais adiante, fazendo as despesas de quase toda a subida, fortemente castigado pelo vento. Ficava desde logo evidente que a etapa iria ser ainda mais selectiva. Todavia, ao contrário do habitual, não houve acelerações nesta fase, tendo o grupo chegado compacto ao Alqueidão.
À saída do Sobral, a caminho da Freiria, o Nuno volta a tomar as rédeas, obrigando o grupo a cerrar fileiras na descida. A calmaria só regressou à entrada da Merceana, antes das rampas de Freixial de Cima e Cortegana começarem a dar um cheirinho da serra. Então, à saída da Atalaia o pelotão retraiu-se e o Carlos sobressaiu, causando surpresa pela coragem de querer enfrentar sozinho o terreno que começa a empinar e o vento contrário. Imediatamente, houve quem não lhe augurasse grande sucesso. Erro crasso, como depois se viu…
Uma iniciativa perfeita, no melhor local e na melhor altura – quando toda a gente começava a fazer contas de cabeça para Montejunto. Nem precisou de acelerar muito, só de manter a velocidade durante a subida (difícil) e no falso plano ascendente que se segue, também muito exposto ao vento. O pelotão manteve-se na expectativa, aparentemente tranquilo, mas não demorou muito a que as vozes se calassem e se passasse à perseguição. Tomou as rédeas quem mais tinha trabalhado até ali: Freitas e Nuno. Mas rapidamente se verificou que a tarefa exigia mais colaboradores. E não havia! Por isso, a fuga começou a ganhar contornos mais vincados. Preocupantes. Antes de começar a descer para Vila Verde dos Francos já havia a certeza que não seria anulada antes de entrar na subida de Montejunto e ficou ainda mais sólida quando os dois lideres desamparados do grupo perseguidor mostraram a revolta e abdicaram. Nesta altura, o Zé-Tó parecia com dificuldade em acreditar no que estava realmente a suceder.
Mas ainda estava para vir o segundo capítulo: a subida. A entrada, muito dura, deu mais do mesmo! Ou seja, entre os «internacionais» a desorganização acentuou-se, de tal modo que o Salvador, o Samuel e o João chegaram a adiantar-se. O Carlos, à frente, beneficiava da apatia. O Freitas teve de assumir a perseguição, com o Nuno em tímida colaboração. Eu sempre na roda. Na primeira contagem de tempo, a olho, antes da ligeira descida, a vantagem do Carlos rondava 1 minuto. Veredicto: para já, uma distância confortável e embora ainda restasse muito e o mais difícil para subir, a missão de anular a fuga começava a complicar-se sem uma inter-ajuda efectiva.
Então o Freitas quis testar a reacção dos seus dois parceiros. Sentir o pulso ou talvez espicaçar! Talvez saber se a razão da minha inércia seria… incapacidade? A resposta terá sido esclarecedora, mas sem contra-ataque.
Estávamos a entrar no segundo maciço da serra, na zona de floresta, e apesar de se ter recuperado cerca de 10 segundos para o fugitivo, a perseguição dava sinais de fraqueza. As esperanças de entendimento tinham acabado definitivamente. Prova disso foi o Nuno ter recuado para a minha roda, deixando ao Freitas as despesas da perseguição. No topo antes da segunda descida (para o cruzamento do quartel), este voltou a tentar livrar-se da (má) companhia. Mais uma vez, sem êxito.
Na fase final da subida, a mais dura, a partir do quartel, o Nuno começou a dar sinais de estar em dificuldades, passando para a ponta do elástico. À frente do trio perseguidor ainda e sempre o Freitas. O Carlos lutava para preservar uma vantagem que lhe permitisse chegar isolado ao alto – nesta altura pouco mais de 20 segundos. Então, a cerca de 700 metros do alto, o Nuno cede e libertou-me das amarras (coisas da táctica!). Passei para a ilharga do Freitas e forcei, depois dei uma sacudidela forte com resposta, descanso, e logo a seguir outra, decisiva. Logo fiquei em cima do Carlos. A 300 metros do cume, acabava a louca aventura do fugitivo. Ainda o convidei a seguir-me nos metros finais (merecia-o, sem imodéstia) mas ele preferiu não forçar, a pensar no… regresso, disse-me! Quem pensaria assim, à beira de fechar com chave de ouro uma grande prova?! Mas, afinal, estamos a falar do senhor «Reservado». De qualquer modo, não precisou de se defender do Freitas – que estava em perda depois de um excelente trabalho durante toda a subida. Também ele com motivos para estar satisfeito com a sua prestação. De resto, tal como o Nuno – a Etapa da Serra está aí!
Referência ainda para as extraordinárias subidas do Salvador e do João – que completaram o lote de notáveis que chegou ao alto de Montejunto.
Notas de observador
O Carlos apostou e ficou a um pequeníssimo passo de ganhar! Todavia, tem o mérito inteiro. Pela coragem, determinação e enorme qualidade demonstradas. A sua prestação tem, no entanto, contrapartidas futuras: a partir de agora, não pode deixar de assumir, em próximas ocasiões, a responsabilidade que advém desta proeza, e que, de certo modo, o colocará perante uma dura batalha pessoal, já que é uma pessoa bastante reservada. Além disso, tão cedo seguramente não irá beneficiar do factor-surpresa que lhe permitiu angariar uma vantagem substancial antes do início da subida para Montejunto, a que inegavelmente não esteve alheia uma certa dose de permissividade, quiçá de menosprezo, dos mais fortes do pelotão – e também de alguma confusão motivada por algumas situações pouco comuns na perseguição.
A diferença abismal que «cavou» para os «não internacionais» é outra conclusão a retirar do seu magnífico desempenho. E não foi só em Montejunto que o Carlos mostrou estar em grande forma. Na subida para o Sobral resistiu, sem vacilar, a um andamento médio de 30 km/h e aos 100 km subiu para o Alqueidão com a mesma frescura com que atacou na Atalaia. Pena que não possa estar na Etapa da Serra da Estrela.
A propósito da Etapa da Serra da Estrela, para dar uma ideia da dureza do percurso A (124 km), basta dizer que o desnível acumulado da volta de hoje (para mim, 133 km) foi de cerca de 1800 metros. No próximo dia 10, vai ser de 2600 metros. Promete!
quinta-feira, agosto 24, 2006
Definição muscular
Nem mais a propósito: há dias em conversa, o proprietário da loja de bicicletas em Alverca dizia-me que o nosso grupo era visto, na região, como altamente competitivo, a um nível muito superior aos dos passeios de fim-de-semana. Contou que, há algum tempo, o grupo a que pertence deparou-se connosco algures na subida do Freixial e quando passámos mal teve tempo de identificar as camisolas! «Sic».
Outra: o Carlos, da Póvoa, dizia-me que, no seu grupo domingueiro, havia alguns elementos com capacidade para integrar o nosso, mas que não o faziam por um motivo muito simples: a «fama terrível» do Pina Bike.
E eu acrescento: há momentos das nossas voltas realmente muito difíceis de explicar a quem não os «vive» por dentro…
quarta-feira, agosto 23, 2006
Miguel Marcelino
Um abraço e bons treinos, camarada!
segunda-feira, agosto 21, 2006
Oeste: a «Bela Clássica»
O andamento moderado, factor determinante para o bom desenrolar da etapa, também permitiu atenuar os desgastes do acumular dos quilómetros e do desnível. Foi o que se viu desde Loures até à Malveira, ligação particularmente delicada, onde o ritmo foi moderado, não descansado. Permitindo enfrentar a subida da Freixeira – primeiro obstáculo sério –, com os depósitos ainda cheios.
À passagem pela Malveira, já o grupo engrossara, com a integração do Nuno Garcia (retido à saída de casa devido a um furo) e o Zé-Tó «Ullrich», que aguardava no início da descida de Vila Franca do Rosário. A partir daqui o cariz da volta mudou. O «Falcão» Freitas tomou o comando e precipitou-se encosta abaixo, mantendo um andamento rijo até ao cruzamento do Livramento, altura em que deixou a condução do grupo entregue ao Hélder. Que não deixou o ritmo baixar, claro está! Por isso, com os topos do Turcifal a meterem parte do pelotão no «red line», a entrada na subida de Catefica provocou imediatamente cortes previsíveis. A maioria não conseguiu seguir o ritmo do duo Hélder/Garcia e outros, como o Freitas, preferiram permanecer na retaguarda, junto do Abel. Inicialmente mantive-me em posição intermédia, com o Carlos e o Salvador, mas quando acelerei para fazer a junção ao duo da frente, não tive companhia.
De novo reagrupados, fizemos uma excelente ligação entre Torres e a Encarnação, primeiro a rolar a favor do vento (O Zé-Tó e o Freitas meteram o andamento ideal) e depois na subida, onde foi louvável o trabalho do Carlos e do Salvador.
De seguida, a Picanceira – o «hot spot» da jornada. Ao contrário do que sucedera na última vez (e até então a única) que se realizou esta volta, a entrada foi moderada e quando passei para a frente, o ritmo foi aumentando gradualmente até à passagem pela localidade. A partir daqui, a parada tornou-se mais selectiva, ainda assim sem mudanças bruscas de velocidade, assim se mantendo até à descida.
Todavia, na abordagem à fase final da subida, na Barreiralva, o Carlos decidiu atacar, desencadeando uma reacção pronta e forte e a quebra definitiva da harmonia. As consequências foram imediatas, como o Pintainho e o próprio Carlos a descolarem no falso plano até à Murgueira, onde continuei a meter o ritmo, experimentando algumas variações, sempre com resposta eficaz do Freitas e do Nuno Garcia, companheiros «inseparáveis» até ao alto do Gradil (Murgueira), onde o nosso «sprintoso» Durão – indiscutivelmente o classicómano mais forte do grupo – impôs mais uma vez a sua lei.
Notas de observador
O momento alto da volta, na minha opinião, foi o ataque do Carlos no topo da Barreiralva. Embora sem o resultado que ele supostamente pretendia, teve todo o mérito ao quebrar a cadência constante elevada que eu vinha a marcar desde a Picanceira, e que não era propícia a aventuras. Ao agitar-se as águas, acabou a coesão do grupo restrito que seguia na frente. O próprio foi vítima de ter ousado mexer no vespeiro, mas pela sua demonstração de coragem e também de força (de facto!), merece inteiramente este destaque. Para mais, ele que, por natureza, é demasiado comedido… Por isso, é uma enorme baixa para a Etapa da Serra da Estrela – que continua em contagem decrescente.
Ao invés, o Hélder «desapareceu» inesperadamente a partir de Torres Vedras. Depois de se ter mostrado na Freixeira e especialmente em Catefica, mergulhou numa discrição muito pouco habitual nele, eclipsando-se na subida da Encarnação e abdicando totalmente de tentar seguir na frente na Picanceira. Aliás, foi com espanto que o vimos chegar com o Abel e o Salvador, os últimos na Murgueira. Terá sido um acto voluntarioso ou o disfarce de um momento mau?! Seja o que for, considero sempre bastante curiosa a forma de se gerirem as fraquezas sem as expor. Ou melhor, tirar a carne do grelhador quando pode sair chamuscada…
O regressado Zé-Tó demonstrou, uma vez mais, que apesar das ausências pontuais mantém um nível de forma satisfatório muito regular. O segredo, segundo diz, é a forma como gere as limitações físicas devido ao escasso treino através de uma abordagem cautelosa às voltas. É um facto, todavia também não é alheia uma dose importante do que se pode chamar factor-genético, ou seja, a sua condição física inata de desportista. E também é atenuante não serem raras as vezes que faz apenas uma parte do percurso. Como o caso de ontem. À parte: já lhe fiz o repto da Serra e ele aceitou ponderar. Bom sinal!
Para a semana, sobe-se Montejunto. A vertente escolhida é a de Vila Verde dos Francos. O percurso de ida e volta é pelo Sobral, Merceana e Atalaia. Bom teste para a Serra da Estrela.
Já agora, no seguimento da conversa mantida com o Pintainho (que continua em evidente crescendo de forma e cada vez melhor adaptado aos «rigores» da roda fina, sendo outra ausência confirmada na Serra, a lamentar), sobre o desafio por ele proposto das Quatro Subidas de Montejunto sugiro-lhe (e aos demais interessados) a data de 5 de Outubro (feriado, quinta-feira). Vamos começar desde já a preparar a aliciante aventura, que serviria para terminar a época em beleza?
quinta-feira, agosto 17, 2006
Oeste no domingo: belíssima!
A partir de Loures dirigimo-nos a Lousa e e Malveira, um troço complicado, que começa logo a subir aos primeiros quilómetros para Guerreiros e termina com a dura encosta da Freixeira. Depois da Malveira, a longa descida para Vila Franca do Rosário e a ligação a Torres, com passagem por nova dificuldade: a subida de Catefica.
Após atravessarmos Torres tomamos a estrada de Sta. Cruz em direcção a Ponte do Rol e depois à esquerda para S. Pedro da Cadeira. A partir daqui regressa o sobe e desce, que depois só acaba... em Loures. A saber: Encarnação (subida), Picanceira (subida... dura!), Murgueira, Mafra/Carapinheira (subida), Alcaínça, Malveira (subida), Venda do Pinheiro e sempre a descer (finalmente!) até Loures.
terça-feira, agosto 15, 2006
A-dos-Arcos agradou
Sobre o assunto, o João fez um comentário muito válido. Disse que mantendo um ritmo constante elevado mas suportável a todo o pelotão, tendo em conta que nem todos aguentam andamentos muito fortes durante muito tempo, ou sofrem as suas consequências mais tarde, é possível ter períodos em que se pode até conversas. Foi o que sucedeu entre Azambuja e Carregado, sem penalizar o normal decurso da volta (a média rondava os 31 km/h à chegada ao cruzamento.
Aliás, nem quando abandonámos o terreno plano para enfrentar o ascendente até Arruda, aumentaram as dificuldades. Num ápice estávamos em Pontes de Monfalim, onde se inicia a estreante subida de A-dos-Arcos, com inclinação suave (3,3%) e 5 km de extensão. Abordagem fez-se a dois tempos. Ou seja, aos pares: primeiro eu e o Salvador, depois o Freitas e o João, que tinham parado à saída de Arruda para «mudar a água às azeitonas». Pior para eles! Nós que ficámos fomos subindo devagar, facilitando a tarefa de junção aos voluntariamente retardatários. E que vinham cheios de garra, passando imediatamente para a dianteira.
Como a subida é extensa dá para moer, permitindo causando algum desgaste com a aparoximação ao alto. O Freitas antecipou o seu sprint final e atacou a cerca de 400 metros de atravessar A-dos-Arcos (a cerca de 1 km do cume), mas apenas conseguiu distanciar o Salvador. No interior da aldeia, mal se formou o trio, o João passou imediatamente ao ataque, decisão que me pareceu precipitada, e que tive oportunidade de lhe dizer «in loco», pois não teve a «potência» que se exigia naquele local tão próximo do alto, em que é difícil surpreender uma concorrência forte. Pior: rapidamente se percebeu que ele ficou «vazio» para responder à aceleração final. O Freitas abriu as hostilidades ao seu estilo, arrancando fortíssimo e eu só tive possibilidade de fechar o espaço à chegada ao alto.
A descer calmamente para Bucelas, o João fez o retrato fiel do que acabara de se passar: «É uma subidinha mesmo à medida do Freitas. Se soubesses a força com que entrou para recuperar o nosso atraso. E ele nem precisava de ter atacado tão cedo». Digo mais: neste tipo de subidas suaves, só impondo um andamento muitíssimo forte desde o início se pode fazer frente ao poder explosivo final do camarada Durão. Mesmo assim…
Entretanto, realce-se que o João e o Salvador confirmaram praticamente a sua presença na Etapa da Serra da Estrela. E que o Rui, o qual agradeço o seu simpático comentário na crónica da volta de Runa, também se mostrou interessado. Seria um valorosíssimo reforço.
domingo, agosto 13, 2006
Runa exemplar!
De Loures a Alverca, ainda a quatro, aqueceu-se progressivamente e a bom ritmo, mas depois dos reforços rolou-se em andamento mais vivo, sempre sem forçar e sem quebras, mesmo no incómodo pavé de Vila Franca. Velocidade de cruzeiro de 30-35 km/h até Alenquer, onde se chegou com mais de 31 km/h de média. E sem dor!
Quando acabou a planície pensou-se que o sobe-e-desce trouxesse alguma retracção. Puro engano. Apesar das habituais reservas nos topos à saída de Alenquer, o grupo cerrou fileiras, toda a gente colaborou à frente e facilmente se chegou à Merceana. Depressa e acima de tudo, sem desgaste acentuado. A esta altura já se comentava a média surpreendente (32 km/h). «Eu estava a aperceber-me que se estava a andar depressa, mas não pensava que era tanto», exclamou o Steven.
Mas o melhor (ou o pior) estava a chegar: a ligação «rompe pernas» entre Merceana e Runa. Moderação e mais moderação. Mas nem tanto. Um trabalho notável do João (como ele tanto gosta!) impôs um andamento suficientemente rijo para não encorajar a acelerações, fazendo-nos «devorar» os topos num ápice e manteve o grupo compacto até muito perto do final do último topo, quando o Rui forçou ligeiramente o ritmo. De qualquer modo, sem aliviar muito na rápida descida, o sexteto estava novamente formado antes do cruzamento para Runa.
A dura rampa do campo de futebol, à saída desta localidade, foi controladíssima e depois de descer para Dois Portos a média teimava em não baixar dos 32 km/h. Apreciável num percurso tão acidentado, provando que, desta maneira de fazer a volta, sobressai mais o elevado nível do grupo Pina Bike.
A partir daqui, o grupo entrou em descompressão. O João parou para reabastecer em Dois Portos e subiu-se para o Sobral bastante devagar – e só uma aceleração forte que fiz nos últimos 300 metros, com o Rui, deu para levar o coração às 187. Ainda assim, a «léguas» das 200 dos domingos anteriores, na Carnota e no Gradil. Depois chegou-se levezinho ao Forte de Alqueidão e ainda mais a Bucelas.
Mas houve um motivo especial para tanta calmaria. À passagem por Seramena, o Pina e o Steven decidiram parar numa taberna para se refrescarem. Os restantes resolveram continuar a subir para o Alqueidão a ritmo de amena cavaqueira. Lá em cima, nem sinais dos retardatários sequiosos. Todavia, decidimos descer sem pedalar… Mesmo assim, nem sombras. Uma vez em Bucelas, esperámos 5, 10 minutos e nada. Preocupados com o atraso, resolvemos entrar em contacto. Do outro lado da linha: «Estamos mesmo a chegar». Enfim, ficámos mais descansados, mas impunha-se uma justificação. Simples: Na taberna não vendiam latas de Coca-Cola, só garrafas de 1,5 litros. Então venha de lá uma… a preço de duas: 1,5 euros. O pior foi para os rapazes beberem aquela quantidade de refrigerante tão depressa! Ainda esperaram que voltássemos para trás, mas como não… foi a garrafa inteira. «Eis a razão do nosso atraso». Pudera!
Um último reparo: mesmo sem cafeína na descida do Sobral, a média total foi de 29,3 km/h – a mesma que era no Forte do Alqueidão.
A volta da próxima terça-feira (dia 15, feriado nacional) é a seguinte: Loures, Alverca, Vila Franca, Carregado, Azambuja (dar a volta), Carregado, Cadafais, Arruda, Pontes de Monfalim, A-dos-Arcos (subida), Estrada do Sobral (descida), Bucelas, Loures (aprox. 105 km). O percurso é sempre a rolar até Cadafais e depois torna-se mais ondulado até Arruda e depois de Pontes de Monfalim, uma subida suave mas selectiva de 5 km (A-dos-Arcos) antes de descer para Bucelas. Interessante!
quinta-feira, agosto 10, 2006
Clássica de Runa no domingo
Antes porém, a ligação a partir de Loures oferece a possibilidade de rolar a boa velocidade, passando por Alverca, Vila Franca, Carregado e Alenquer – onde os homens forte podem testar as forças à frente do pelotão.
Depois de Alenquer, a primeira voltinha de carrossel, por Porto de Luz, Cotovelo, Aldeia Gavinha e finalmente Merceana. A partir daqui acentua-se o sobe-e-desce, terreno favorável aos todo-o-terreno, e onde o acumular dos quilómetros poderá começar a fazer uma selecção natural no grupo. A chegada ao cruzamento para Runa (à esquerda) faz-se em rápida descida e num ápice estamos a atravessar a localidade. À saída, depara-se-nos uma rampa bastante inclinada, com cerca de 1 km a mais de 8%, em que qualquer alteração de ritmo poderá acabar com a já delicada coesão do grupo nesta altura. Todavia, se esta se mantiver (como aconteceu na primeira e única vez que se disputou esta volta*) certamente não resistirá a partir de Dois Portos, pois será sempre a trepar até ao Sobral, através de um troço (4,2 km) que se faz muito poucas vezes… a subir. Após o Sobral ainda resta ascender ao Forte de Alqueidão, seguindo-se a longa descida para Bucelas e finalmente o regresso a Loures.
* Recorde-se que a primeira vez que se efectuou esta volta foi dia 8 de Janeiro, sob frio intenso (5 graus à partida), e depois de uma série de interessantes escaramuças entre Merceana e Runa, à saída de Dois Porto seguiu-se em direcção à Feliteira, Sapataria, Póvoa da Galega e Montachique, em ritmo muito moderado, inclusive na subida final para Montachique. Todo este troço referenciado foi suprimido devido às más condições do piso, subindo-se agora de Dois Portos para o Sobral.
quarta-feira, agosto 09, 2006
Gardunha em dose dupla
Todavia, as recomendações dirigem-se aos candidatos ao percurso maior (124 km), que contempla, além de duas passagens pela Serra da Gardunha, a ligação nada fácil a Manteigas e finalmente a longa e dura subida ao ponto mais alto de Portugal Continental.
Partindo do pressuposto que não conheço as subidas em questão (Gardunha Norte, Sul e Manteigas-Piornos) todavia é-me possível concluir, através dos testemunhos de quem já as fez e também pelo reconhecimento teórico, via Google Earth (calculando as distâncias e as percentagens de inclinação), que a primeira passagem pela Gardunha (Norte) terá a condicionante ser logo aos primeiros quilómetros (3 km), embora a subida propriamente dita só comece aos 12 km. Todavia, logo à saída do Fundão, a estrada empina, deparando-nos uma primeira rampa de 600 metros, a 5,3% (aos 6,2 km), e mais tarde (8 km) outra, que embora mais curta, (360 m) é muito mais dura (10,6%). Um sobe e desce que antecede a subida principal, que tem 3,2 km e 4% - praticamente da distância da nossa bem conhecida Ribas, mas muito mais suave (Ribas tem 6%).
Depois de descer a serra e de percorrer 16 km (duas vezes 8 km) em terreno quase plano, com inversão de marcha na rotunda de Soalheira (25 km), aborda-se a segunda passagem pela Gardunha (Sul) – também conhecida por Alpedrinha, pois atravessa esta localidade serrana. Desta tenho uma vaga ideia, por tê-la subido há alguns anos no tradicional passeio de cicloturismo… a 10 km/h. Logo são poucas as referências.
É mais longa (5,4 km) mas tem a vantagem, em relação à primeira, de a inclinação ser mais constante e não muito mais elevada (4,3%). A sua abordagem faz-se aos 33 km, ainda no primeiro terço da etapa. Ou seja, com muito por pedalar. Logo todas as cautelas serão poucas…
Certamente, para alguns participantes é fundamental atentar ao andamento do grupo, pois pode ser proibitivo ou, no mínimo, pouco recomendável segui-lo. Por isso, aconselha-se a cada pessoa que adeque o ritmo às suas capacidades, o que nem sempre é fácil. Neste caso, a auto-avaliação impõe uma grande dose de racionalidade e de humildade…
Contudo, o resultado final de uma gestão cautelosa certamente será recompensador!
terça-feira, agosto 08, 2006
Etapa da Serra da Estrela - apresentação
O objectivo, claro está, é bastante mais exigente, impondo aos participantes condição física apurada e uma abordagem extremamente cautelosa. Mas também neste particular a tirada deste ano pretende ser de diferente cariz, sugerindo-se aos mesmos que a encarem como um repto estritamente individual, preparando-a com toda a aplicação e rigor que recomenda, encarando-a segundo o princípio-mor de a cumprir, independentemente do tempo que demore.
Por esse motivo, foi igualmente definido um percurso alternativo (B), mais curto e acessível, que suprime as duas ascensões da Gardunha, deste modo suprindo cerca de 700 metros de desnível acumulado e 50 km, num total de 74 km. A ideia é que os participantes neste trajecto iniciem a prova na altura em que os que efectuam o percurso completo (A) regressam ao Fundão, junto ao conhecido Hotel do Alambique, na zona industrial à saída da cidade em direcção à Covilhã (Estrada Nacional 18). Mas não é imperativo que o façam.
De acordo com a hora a definir para a partida dos participantes no percurso A, estima-se que a sua passagem no local referido se efectue entre 1h50/2h00 depois (média entre 25-27 km/h).
Com esta proposta pretende-se que maior número de pessoas alinhe nesta fascinante aventura ciclista da Serra que promete ser especial.
Para mais informações (e respectiva actualização) consultar este blog ou através do telefone 96.293.9482 (Ricardo Costa) e ainda no estabelecimento Pina Bike, na Quinta Nova de S. Roque, Loures.
Importante: recomenda-se aos interessados que confirmem a sua presença com devida antecedência.
segunda-feira, agosto 07, 2006
Gradil ainda mais selectivo
O grupo que saiu de Loures foi o mais numeroso de há muitos domingos a esta parte - o que se salienta pela positiva - e teve um desempenho muito homógeneo, apenas se desagregando definitivamente na aproximação à Malveira, quando já pessavam nas pernas o desgaste provocado pelo calor e as passagens pelo Forte de Alqueidão e no ponto alto da etapa: a dupla subida do Gradil.
A primeira foi feita a ritmo bem moderado até aos ferro-velhos, altura em que o trio Freitas-Hélder-«Ribeiralves» se destacou, forçando a uma perseguição forte do pelotão até ao Forte. Aliás, situação já habitual neste local. Pelo contrário, o Gradil, além de mais exigente foi marcado por um andamento forte quase desde o início, imposto pelo Hélder, seleccionando rapidamente um sexteto composto por Hélder-Ricardo-Freitas-Nuno-Pintainho e «Ribeiralves».
Sinal que a «coisa» seria dura foi o elevado número de «talegas» metidas. E com as pulsações muito perto de regimes máximos dei-me por satisfeito ter chegado ao primeiro topo no grupo da frente. A subida final para a Murgueira teve uma abordagem mais cautelosa, tanto mais que o Hélder demorou a assumir-se, como seria previsível, deixando mesmo o comando para o «Ribeiralves» e o Nuno. O Freitas e eu, ambos na expectativa. Aliás, o aguardado ataque do Hélder terá sido mais retardado também por ter ficado fechado junto à berma durante algumas centenas de metros, mas depois do gancho nada nem ninguém o pôde contar, fazendo uma fortíssima aceleração, que obrigou os restantes a cerrarem fileiras. O espaço abriu-se, mas felizmente ele parou... Mas fez «estragos» - o mais vísivel, no Pintainho, que largou. À entrada para o último km, decidiu experimentar a sorte. Acelerei uma primeira vez, em esticão, para sentir as pernas e aliviei. O grupo esticou e voltou a agregar-se. desta vez, terá ficado o «Ribeiralves». Mas 100 metros depois, voltei a acelerar, desta vez bem à vista de todos, e após as primeiras pedaladas as pernas «pediram» o 50, fraccionando definitivamente o grupo e isolando-me com o Hélder (em grande forma!), que sprintou mais forte para passar à frente no alto. A «temperatura» subiu a valores elevadísimos... mas foi muito divertido!
No regresso, registe-se a providencial e retemperadora paragem do pelotão para abastecimento na estação de serviço à entrada de Mafra e após o acidentado percurso até à Malveira apenas os mais fortes resistiram no grupo da frente. Em relação ao grupo mais forte no Gradil faltou o Pintainho (como é habitual os km já deveriam pesar nas pernas, o que não invalida a sua excelente prestação nas subidas, sem dúvida, a um nível superior à média do grupo), e entraram o João e o Salvador, que não estiveram nos momentos «altos» da tirada porque o andamento foi, de facto, altamente selectivo.
sexta-feira, agosto 04, 2006
Volta a Portugal 2006
Este ano, parece ter havido um esforço da organização em tornar a dar a Volta a Portugal e não só ao Norte e Centro. Mas numa etapa apenas (1ª) liga-se o Algarve (Portimão) ao Alentejo (Beja) e a coisa está feita! Louva-se também que a caravana faça uma passagem (obrigatória, digo eu!) por Lisboa, afinal ainda é capital.
No entanto, em relação ao percurso, creio que desta vez o Joaquim Gomes deixou-se finalmente convencer pelo eterno choradinho do Cândido Barbosa e da sua trupe e fez a volta à medida do sprinter-trepador da LA. Na minha opinião, até mais que em 2005 - como se fosse possível haver melhor a pensar nas características do menino de Lordelo - mas ninguém esperava que o «Bladimir» (que é grande ciclista) lhes desse a... volta.
Mas há limites para a indecência. Mesmo elogiando alguns finais de etapa pouco habituais nos últimos anos, como a chegada a Felgueiras - que deverá ser interessante -, a longa mas pouco selectiva subida para a Guarda e a clássica Sra. da Graça, que é de longe a etapa mais dura, ao nível das melhores provas internacionais. Nesta última, no entanto, a atentar pelos últimos anos, o pelotão vai voltar a arrastar-se pelo Alvão e o Viso para não moer muito as perninhas, e depois toda a gente vai chegar com força ao Monte Farinha, principalmente o bom do Cândido, prevendo-se mais um sprint de 500 metros no alto, como em 2005.
Mas muito mais escandaloso é a etapa-que-custumava-ser-rainha da Volta: a da Torre. Já se vai tornando um hábito triste que a etapa não termine na única montanha de categoria especial que temos em Portugal, mas creio que este ano estão mesmo a brincar com o povo! Como não ficaram satisfeitos com madorna do ano passado que foi assistir à perseguição do Cândido ao Efemkin e ao Perez pela perigosa descida para a Covilhã e depois sensaborona ligação ao Fundão, mesmo ao jeito dos roladores, agora ainda fizeram pior: sobe-se para a Torre pela vertente mais fácil (Seia) e desce-se para Manteigas para terminar novamente no Fundão. O terreno plano e as descidas são ainda maiores. Quem será o louco trepador que vai atacar nas Penhas Douradas ou em Seia, para depois derreter nos quase 100 km que faltarão?
Bom isto sou eu a falar... mal!
quinta-feira, agosto 03, 2006
Gradil «aqueceu» em Novembro
Em jeito de curiosidade, relembro que no já longuínquo dia 13 de Novembro de 2005, cinzento e frio, a mesma etapa ficou marcada por uma fuga épica de dois corredores iniciada na descida da Feliteira, perigosamente molhada, que supreendeu um pelotão recheado de ilustres figuras como o Freitas, o Miguel e o Nuno Garcia, e durou até à Murgueira, no alto do Gradil.
Quem seriam o dois gloriosos – embora apenas um tenha concretizado essa façanha, derretendo (!) uma legião de perseguidores? Desde já, garante-se que no domingo não se repetirá…
terça-feira, agosto 01, 2006
Regresso com recordes...
De qualquer maneira, ao início da manhã do último domingo resolvi fazer o percurso entre Alverca e Loures à moda antiga, de bicicleta, aproveitando para aferir o estado do físico, evitando fazê-lo em plena volta – se optasse, como seria recomendável, por ir de carro até ao local da concentração. Embora não sentisse as pernas muito presas, as pulsações eram incontroláveis, pronuncio de grandes atrocidades nas horas seguintes. Ao ponto de me assolar a ideia de poder ser dia de empeno, e daqueles valentes.
Pelos menos, foi de recordes, mesmo que sem serem propriamente gloriosos. O recorde da pulsação média (158) e de pulsação máxima (200). A barreira psicológica (ou será mais física…) foi quebrada!
Mas apesar destes números alucinantes, a verdade é que passei ao lado de um castigo demasiado severo para os músculos. Os mais puristas podem crer que cientificamente não terá sido a abordagem recomendável ao regresso à actividade, mas digo-lhes que foi, sem dúvida, a que deliberadamente pretendi. Aliás, depois de sete meses «amarrado» a um programa de preparação com vista a objectivos específicos espaçados no tempo, chegou a hora de dar largas…
Para mais, a volta foi muito interessante e bem disputada. Tratou-se da Clássica da Carnota, que, pelos visto, foi a mais suave dos últimos 15 dias, em que os meus camaradas aproveitaram a minha ausência para andar em terreno de trepadores. Não é justo, digo eu!
A saída de Loures em direcção a Alverca, onde se enfrentou a subida de A-do-Barriga, foi bastante moderado. Mais para os outros, certamente, porque eu raramente baixei das 150 bpm. Na subida deixei mesmo de olhar para o pulsómetro para me concentrar nas sensações, que, de resto, foram bastante melhores do que em ocasiões semelhantes – e por isso o andamento não tivesse sido tão difícil de aguentar e o esforço não tido efeitos tão nefastos.
O Durão do Freitas aguentou muito bem o «tranco» no pelotão na subida quando o sempre empertigado Hélder se adiantou, mantendo um passo que permitiu não perder o fugitivo de vista e não causar grandes mossas no grupo perseguidor. O ritmo moderado, aliás, manteve-se na descida para Alhandra e depois em direcção ao Carregado e a Cadafais, onde começou a segunda dificuldade do dia: a subida para Santana da Carnota.
Também aqui, o Durão não se fez rogado a dar o peito ao vento na condução do grupo e assim continuou quando o Hélder voltou a acelerar, desta vez levando na roda o Carlos e o João. Agora, a perseguição tinha de ser mais efectiva do que em A-do-Barriga, sempre com o Freitas a fazer as despesas ao longo do falso plano ascendente antes da subida propriamente dita – os últimos 3 km.
A distância para os três fugitivos manteve-se estabilizada mas, às tantas, afigurava-se difícil de anular antes da subida. Na frente, o Hélder não cedia e parecia dispensar a ajuda dos seus companheiros de fuga.
Então resolvi dar uma mãozinha ao voluntarioso Durão. Um trabalho de gregário, perceba-se. Mesmo com o coração na garganta, as pernas ainda tinham alguma coisa para dar. A cerca de um quilómetro da Carnota disse-lhe para suster um pouco o andamento, permitindo-me colocar-me à frente do pelotão à entrada da subida – numa altura em que, entre os fugitivos, o Carlos fazia a primeira mudança de ritmo e o João cedia.
Lá atrás, meti o passo possível para anular a fuga antes do alto, permitindo ao Durão «encostar». O objectivo foi concretizado ainda a cerca de 1 km do cume, altura em que as minhas forças chegaram ao limite. Ainda tive oportunidade de observar mais uma mudança de velocidade do Carlos, a que não foi fácil responder, mas penso que o trio chegou junto ao alto. O João recuperou muito bem após o momento de fraqueza no início da subida e passou por mim em bom andamento.
A partir da daqui, e com pouco mais de metade do percurso realizado, não voltou a haver grandes correrias, a não ser um sprint vigoroso no Forte do Alqueidão (o Hélder foi adversário duro de roer para o… Durão) e depois, muito mais tarde, na rampa do depósito de rações, à chegada a Bucelas. Também aqui, o betetista apertou o nosso «sprintoso», que está quase ao ponto para a «Pedro Delgado».
Para mim, depois de Bucelas a «solo» no regresso a Alverca, o Cabeço da Rosa não foi tão mau como se antevia. Agora é recuperar para adquirir paulatinamente uma forma…decente!
Tanto mais, que este ano a tradicional etapa da Serra da Estrela, em meados de Setembro, tem muitas novidades e promete ser ainda mais interessante. A revelar em breve!
sábado, julho 15, 2006
Etapa do Tour 2006
O dia 10 de Julho amanheceu fresco, com céu limpo e a soprar vento moderado que deixava antever mais dificuldades que o que o percurso impunha: a conquista homérica do Col d’Izoard (categoria especial), Col du Lautaret (2ª cat.) e do ainda mais célebre Alpe d’Huez (cat. especial), numa etapa de 191,1 km.
Depois do pequeno-almoço reforçado, deixámos a base – num parque de campismo dos arredores da cidade de Gap –, a toda a velocidade, descendo os primeiros três quilómetros do Col de Bayard, sobranceiro à cidade. Gap ergue-se num vale lindíssimo, entre imponentes montanhas da cordilheira alpina.
Eu, o Nuno e o Jerónimo chegámos à zona de partida sem ponta de stress: afinal restava-nos aguardar que muitos mais de 7000 partissem antes de darmos as primeiras pedaladas. Atrás de nós, provavelmente não estariam 100…
Às 7h30 em ponto deu-se o «tiro» de partida mas só mais de 20 minutos depois cruzámos a linha, percorrendo mais de meio quilómetro a empurrar a bicicleta ao pé-coxinho – situação que já é habitual, dado o número elevado do nosso dorsal.
De qualquer modo, ao contrário de outras edições, não houve grandes engarrafamentos nos primeiros quilómetros, graças à boa largura da estrada e à planura do relevo, que permitiu desde logo rolar a boa velocidade. Assim durante os primeiros 55 km passaram mais depressa do que eu esperava – e temia, pois é sempre uma fase delicada em que gasta muitas energias a saltar de grupo em grupo. Alguns topos fizeram-se no abrigo de grandes pelotões que sempre se formam.
Na véspera, em jeito de brincadeira, dissera aos meus companheiros que queria que chegássemos ao sopé do Izoard com 40 km/h de média. Não foi mau: 34 km/h. Isto a «olhómetro», porque o meu conta-quilómetros não funcionava desde a partida. Pelo menos, não foi o pulsómetro, como nos Lagos! Mas rapidamente fiquei a saber o motivo do problema e a forma simples de o resolver, quando, no primeiro abastecimento, antes de iniciar a longa subida do Izoard, ficámos retidos devido a um aglomerado – lapso pouco comum na (quase sempre) irrepreensível organização da prova. Então ao inspeccionar o sensor e a roda reparei que, na véspera, os mecânicos da Mavic (imagine-se!) tinham instalado a chaveta ao contrário (o cubo da roda tinha os rolamentos gripados e tiveram de ser trocados). Assim, quando montei a roda antes da partida, obviamente o imãn ficou… do avesso. Logo... off!
Voltámos a pedalar mais de 7 minutos depois da paragem forçada, já com o aparato tecnológico em pleno funcionamento, mas com a «Etapa de Ouro» (que se atribuía, no meu escalão de idade, a quem fizesse menos de 7h00 de prova) definitivamente hipotecada. O objectivo não era fácil de alcançar e confesso que nunca acreditei atingi-lo, mas, no final, mesmo tendo ficado a mais de 25 minutos, senti que estive mais perto que nunca de o alcançar. As razões para este meu vaticínio surgiram, principalmente, a partir do momento da prova que descreverei a seguir: a montanha.
Chegava o mítico Col d’Izoard é fantástico. Longo e extremamente selectivo. Começa a subir gradualmente por entre uma estrada que atravessa uma estreita garganta rasgada por um rio tumultuoso e que culmina num cruzamento à esquerda, onde se empinam as primeiras rampas verdadeiramente duras: eis a subida propriamente dita (14,5 km a 7%).

Desde logo, pedaleira pequena e o ritmo adequado. Confirmaram-se as boas sensações que trazia desde a partida: pernas leves, cadência elevada e facilidade em seguir as melhores rodas – como a de um sul-africano que serviu de lebre até à esfusiante aldeia de Arvieux, tipicamente alpina, onde a inclinação oscila entre 9 e 10%. Aqui o Nuno cedeu. O Jerónimo já o tinha feito – atempadamente e bem – pouco depois do cruzamento de entrada na subida. Creio que o Nuno insistiu e acabou por pagar demasiado caro o esforço. A partir daqui, ainda a meio caminho do Col d’Izoard, fiquei «sozinho» entre milhares, mas com a encorajadora sensação que as forças tão cedo não me abandonariam.

A parte mais difícil da subida passou-se bem e o melhor estava reservado para a parte final: após 11 km de ascensão entra-se um cenário arrebatador, do tipo lunar, chamado Casse Déserte. De um lado, escarpas e picos gelados; do outro, aridez rochosa, num contraste quase indescritível. As lápides de Coppi e Bobet (à esquerda) fazem-nos entrar na lenda do Tour.
Faltam, então, apenas 2 km de uma estrada que não pára de serpentear até ao cume da montanha. Lá em cima, a 2360 m de altitude, uma das fotógrafas oficiais da prova agradece o meu «danceuse» (levantar estiloso do selim) especialmente para o boneco. A emoção do momento deu para tudo!

A primeira contagem de montanha de categoria especial estava ultrapassada (fiz uma média de 13 km/h em 14,5 km). Seguiu-se uma longa e sinuosa descida, rápida e perigosa. Logo nas primeiras curvas, uma queda aparatosa deixou alguém aparentemente maltratado. A partir daí, tive ainda mais prudência na abordagem das curvas, mas as rectas o velocímetro ascendia a 70 km/h.
Já cansado de tanto… descer, quase em Briançon avisto a encorajadora placa, já habitual nesta prova: «Só faltam 100 km!», a que se seguiu, 10 km adiante, outra do mesmo género, mas, digamos, com outra filosofia: «Você já percorreu 100 km». Estava dado o mote para a segunda metade da prova.
Quando terminei a descida, apercebo-me de como a temperatura estava alta. Mau augúrio. No abastecimento de Briançon faço a paragem programada. Bebo de seguida quase meio litro de água fresca, reencho os bidões e meto mais duas garrafas debaixo da camisola. Volto a partir nem três minutos depois.

Chegara a vez de atacar a segunda grande dificuldade da jornada: o Col du Lautaret (12 km a 4,4%, portanto mais acessível que o Izoard). Ainda no interior de Briançon, quando penso que a aproximação à subida vai ser doce, deparo-me com uma rampa de cerca de 500 metros a mais de 10%! Meti a «calçadeira» (36x25) e ia por ali acima quando passa por mim o «campeão da Alemanha» com a «talega» metida e a sprintar como se não houvesse amanhã. Bem, será de «outro campeonato», pensei. No entanto, o ímpeto passou-lhe depressa e ainda antes do final da rampa agarrei-lhe a roda. Por sinal, uma excelente roda, que chupei durante os longos falsos planos ascendentes do início do Lautaret, feitos quase sempre acima dos 35 km/h, a «queimar» pequenos grupos e alguns ciclistas desastradamente isolados ao vento frontal.
Mas o alemão não era muito prestável a boleias e, por duas ou três ocasiões, tentou-me sacudir quando fazíamos transição entre grupos. Como não teve êxito (apesar de algumas vezes eu ter deixado abrir alguns metros para não ir ao choque), finalmente habituou-se à minha companhia parasita. Mas eu estava disposto a retribuir a gentileza. Mais tarde, por certo. Então iria conhecer a verdadeira fibra dos Pina Bike. E assim que chegaram as maiores inclinações, assumi o comando. Durante os últimos 9 km da subida fiz as despesas, rebocando não só o alemão, como um verdadeiro comboio. Com quase 140 km percorridos, as pernas pareciam mais leves que nunca e a consequência foi a perda gradual da composição, inclusive o germânico, que se ficou algures nos últimos 5 km da subida. A aproximação ao topo do Lautaret também é espantosa… e falsamente aterradora. Os últimos 1,5 km perfazem numa longa curva, que circunda a montanha, avistando-se, sobre o lado direito, uma subida ainda mais íngreme. Às tantas, receie que o nosso caminho fosse por ali, mas rapidamente constatei que não: é o Galibier, esse velho conhecido! Um dia havemos de ajustar contas antigas…
Desde Briançon até ao Col du Lautaret (28 km) fiz 22,5 km de média e 146 bpm de pulsação. Muito positivo!
A descida do Lautaret é longíssima e tem… subidas! Nesta altura deu perfeitamente para perceber como iam justas as forças no grupo que entretanto se formou. Quando surgiam os topos mais longos – o mais picante, após o lago artificial da barragem do Chambon e o cruzamento para a subida dos Deux Alpes (outra espinha atravessada desde a Etapa de Tour de 1998) – o grupo fraccionava-se e acabou mesmo por perder a maioria dos elementos na montanha-russa que nos leva a Bourg d’Oisans, a localidade que fica no sopé do mítico Alpe d’Huez, e onde, aliás, se desfez como por magia…

Aqui: 176 km cumpridos e 6h11m de selim. Cruzamento à direita para sair da estrada nacional, pequena recta e curva à esquerda e eis a arrepiante primeira rampa do Alpe d’Huez. Nos primeiros 2 km, nas ligações entre as célebres curvas em cotovelo (21 ao todo), a inclinação é de 12%! Mas pior que a dureza do relevo foi o calor que fazia àquela hora – um autêntico braseiro a 35 graus. E ainda pior foram as dores que sentia no pé esquerdo, devido ao sapato, que já me tinha deixado os dedos dormentes – ainda estou para saber por que motivo. Foi pena, pois sentia-me bem, com força para gastar «à bruta» montanha acima. Enquanto que ia lutando contra a sede, a dor e as fortes percentagens, a única panaceia era a aproximação à meta. Valeu-me a solidariedade de muitos espectadores à beira da estrada, dando a beber água fresca das inúmeras fontes ao longo da subida. Mas não só. Também houve benditos que se deram ao trabalho louvável de instalar chuveiros. Apeteceu-me ficar já ali.

A certa altura, mesmo com os miolos quase fritos, assolou-me a seguinte ideia, uma espécie de lema desta prova: «Não há Etapa do Tour sem sofrimento ou provação». E esta estava em falta. Tudo tinha corrido demasiado bem até então, por isso o calor e as dores tinham chegado a tempo de crivar o Alpe d’Huez na memória desta participação.
De qualquer modo, a cerca de 4 km a vontade de chegar rapidamente ao alto superou o sacrifício, e a iminência da entrada na famosa estância de ski quase dissipou as dores e o cansaço. A partir daí, a inclinação baixa e já nos arruamentos, entre as casas alpinas, prescindo da pedaleira grande para elevar desmesuradamente a rotação dos pedais – recordando Lance Armstrong. Nos últimos 500 metros, já com um sorriso nos lábios, às tantas fico lado-a-lado com outro ciclista, cujo dorsal era muito próximo do meu (6000 e tal). Depois de balbuciar qualquer coisa num francês imperceptível, decide forçar o andamento. O que quereria? Talvez não perder um lugar para um potencial concorrente directo? Embora soubesse (ao contrário dele) que apesar do meu número (6290), tinha partido da barreira dos 7000 – logo estava com uma vantagem que não se anularia ao sprint –, não quis perder a oportunidade de terminar em grande estilo e fiz-me à recta final com tal violência que devo tê-lo surpreendido. Com a embalagem ainda passei mais dois até à meta. Missão cumprida!

Ainda mal refeito, inicio a sempre demorada mas saborosa degustação de toda a epopeia. Entretanto, detêm-me por uns instantes para me retirar o chip do tornozelo e meter à pressa uma medalha no bolso. Depois, com um pouco amigável empurrão ajudam-me a sair dali… rapidamente.
Assim que franqueio o arco insuflável, assolam-se-me as prioridades: ingerir líquidos em grande quantidade… e depois comer, comer! Só penso que o saquinho de mantimentos que nos oferecem à saída desta vez não vai chegar. Vejo milhares de garrafas de plástico empilhadas em paletes atrás de uma vedação metálica. Penso: vou saltar, não quero saber. E a bicicleta, onde guardar? E o pé a rebentar dentro do sapato. Descalço-me, prendo os sapatos aos pedais, meto a bicicleta, capacete e tudo, no parque fechado (estilo super-bengaleiro) e corro para a fila do saquinho com o «voucher» em riste. Não tive de esperar muito, mas quando desfaço o nó de plástico a visão é aterradora: uma garrafinha de água de 33 cl e outra de 0,5 l, com gás. Engulo a primeira quase sem tirar a tampa e preparo-me para a beber a gaseificada já convencido que ao primeiro golo vomitaria… Felizmente, não. E deu para tirar o depósito da reserva.
Agora, comodamente deitado no chão da tenda-restaurante, a salvo da canícula que se fazia sentir no exterior, devoro a banana e o pacote de batatas fritas tamanho XS. Ficaram a barra energética e o bolo de mel… arrrggg!!! Iguarias prescindíveis, pois a minha salvação estava ao fundo do balcão: um prato de macarrão com molho de tomate e mozzarela. Corri para o apanhar e ainda tive a desditosa lata de pedir reforço. Manjar abençoado, que degluti calmamente na soalheira tribuna principal.
Nos mais de 15 minutos que lá estive a encher-me de massa não vi passar nenhum dos meus dois companheiros. Ocorreu-me que o Nuno deveria ter perdido bastante tempo ao ter ficado para trás tão cedo. E que o Jerónimo, por ter feito o mesmo ainda antes, também estivesse para concluir a prova.
Sobre este, não me enganei por muito, já que depois de ter abandonado o meu posto na bancada e subo em direcção à zona de chegada, encontro-o ainda a refazer-se do esforço, mas já na companhia da mulher e de boa saúde. Mesmo assim, reconheceu imediatamente que nunca antes tinha sofrido tanto.
Todavia, fiquei surpreendido quando a Lena me diz que o Nuno ainda não tinha chegado e que só poderia estar a passar mal. Eu não precisava de mais para saber que a sua preocupação tinha fundamento. Já passara quase uma hora desde que cheguei e um atraso tão grande só poderia justificar-se por estar em grandes dificuldades. Ainda se teve de aguardar cerca de um quarto de hora para confirmá-lo. Chegou quase irreconhecível. De tal modo, que a sua cara quase desaparecia debaixo do capacete. O rosto esbranquiçado, encovado, marcado pelo sofrimento. As suas primeiras palavras resumem tudo: «Não devia ter-me metido nisto!» Duro ensinamento, sábias palavras: a Etapa do Tour é a mais bela do Mundo mas também é terrivelmente impiedosa para os incautos. Eu que o diga, que já fui sua vítima. Mais do que uma vez! Por isso, estou a aprender a vencê-la…
segunda-feira, julho 03, 2006
Fica para a próxima!
O andamento imposto pelo Durão entre os fugitivos permitiu-lhes ganhar rapidamente vantagem significativa… e a aumentar à vista desarmada. O Salvador não resistiu e deixou-se descair, sendo reabsorvido pelo pelotão. Bem fez!
À passagem pelo alto da Freixeira (Venda), os escapados passaram a ser cinco com a entrada do ZT e do Abel (que aí esperavam pelo grupo). Atrás, sete perseguidores: Ricardo, Carlos, João, Samuel, Salvador, Pintainho e o amigo do Pedro. O Salvador vacila após a subida do Vale de S. Gião, obrigando a refrear o andamento. Nada de preocupante. O João ajuda-o e a recolagem é consumada na Malveira. Os fugitivos há muito que tinham saído da vista do pelotão.
Na descida para Vila Franca do Rosário, o João e o Salvador estiraram bem o grupo e mesmo a mais de 60 km/h começou a afinar-se a perseguição. Foi o que se viu no topo de Vale da Guarda. A partir de Barras, toda a gente já passava pela frente. Cerca de 20 segundos a cada um para não «queimar» e sem esticões. Aliás, ninguém estava autorizado a forçar o andamento. O importante, nesta altura – mesmo sem controlo visual dos fugitivos –, era manter a distância, que à velocidade que se rodava atrás dificilmente poderia aumentar – a não ser que se estivessem a «esturricar». Neste caso, pior para eles!
Foi muito bem respeitado o pedido de prudência nos topos do Turcifal, porque se aproximava a subida do Carvalhal para Catefica, onde era necessário jogar os «trunfos», sem, no entanto, sem arriscar colocar em cheque a harmonia do pelotão. Subiu-se muito bem e se era necessário mais alguma prova que o grupo perseguidor estava coeso, ela dada. Para minha surpresa, avistámos os fugitivos praticamente a passar pelo alto (Catefica). De facto, não previa tão rápida recuperação. Teriam de ter «parado»! Ainda mais surpreendente: o Durão estava ligeiramente adiantado e levada na roda o… Abel. ZT, Pina e Fantasma tinham cedido! Por isso, aliviámos imediatamente o andamento. As «presas» estavam controladas.
Mas eis que soou o alarme no pelotão: o Samuel desaparecera sem deixar rasto… Eu e o João aguardámos… aguardámos… e nada! Não poderia ter perdido tanto tempo. Voltou para trás?!
Novamente no seio do pelotão e já no início da subida de Sarge apanhámos o trio intermédio (Pina, ZT e Fantasma), com o Durão e o Abel cerca de 300 metros adiante. Estava a ver-se que chegara a hora do primeiro lançar a derradeira cartada se ainda alimentasse esperanças de chegar ao alto da Ereira isolado. O Abel foi absorvido e fomos da peugada do fugitivo – que definitivamente tinha acelerado e bem. Ou seja, atrás também não se podia facilitar. Por isso, forcei o andamento na subida e o João e Salvador continuaram o bom trabalho na descida para Ermegeira. As hipóteses do Durão diminuiam. Mais: pelotão mantinha-se agrupado – à excepção do Fantasma, que ficara ligeiramente para trás.
Chegámos à subida da Ereira: dura, com 3,2 km, uma média de 7%, longas rampas a 9% e passagens a 11%. O Freitas entrou destacado, cerca de 300 metros. Ainda era qualquer coisa. Atrás, após alguma controvérsia sobre o paradeiro do Fantasma (que reteve o andamento durante as primeiras centenas de metros), o Pintainho «meteu» o passo, levando na sua roda o Carlos. Quase todos procuraram fazer o mesmo. À entrada do tal km a 9%, passei para a frente. Às tantas, ouço lá atrás alguém gritar: «O Capitão vem aí, podes ir!» E fui (mas já ia!), abrindo rapidamente para o Pintainho e o Carlos. O ZT e o João vinham também lá. O Freitas levava ainda 150 metros vantagem, mas como estava nitidamente em perda e a distância esfumou-se num ápice. A 200 metros do final da parte dura cheguei à sua roda e passei ao ataque. À primeira sacudidela respondeu bem, mas após o ligeiro descanso (6%), junto às bombas, perante nova aceleração forte na rampa de 10%, que inicia os 600 metros finais da subida, cedeu clamorosamente.
O Carlos, Pintainho, ZT, João e os restantes não demoraram muito tempo a chegar ao cume – somente o Fantasma necessitou de algum ânimo suplementar. E o Pintainho não perdeu tempo a servir-lhe o prato frio da vingança.
A partir daqui, a volta seguiu em «paz», mesmo com o Salvador fugido, pairando no ar a sensação, quase generalizada, do dever cumprido. Os últimos metros do Alqueidão ainda deram para voltar a ligar (e bem) as turbinas, mas até aí os bravos do dia estiveram em grande, descendo-se para Bucelas a bom ritmo – e com quase toda a gente junta.
Notas de observador:
1. A frase começa a estar batida, mas ontem voltou a «fazer-se ciclismo». O grau de exigência aumentou consideravelmente em relação ao domingo transacto, e a volta não era mais «doce». Todavia, o nível do grupo permite esses excessos. Uma fuga duradoura e um pelotão a perseguir. Toda a gente correspondeu a preceito. Lá à frente, os fugitivos fizeram um trabalho muito bom, destacando-se rapidamente – e isso exige um esforço adicional, cuja factura não se pode deixar de pagar mais tarde. Atrás, os perseguidores (e eu posso testemunhar) estiveram irrepreensíveis. Para eles, em especial, os meus parabéns. Passaram-se momentos de forte empenho e o resultado final (a anulação da fuga) foi recompensador. Se me permitem o pretensiosismo: se eu fosse o chefe-de-fila daquela equipa, asseguro que esta não poderia ter feito melhor trabalho para me deixar com possibilidades de discutir a «vitória» na Ereira. Para a próxima, prometo retribuir.
2. Também os fugitivos estiveram muitíssimo bem, embora tenham, porventura, exagerado no esforço para manter (ou então, aumentar a diferença) durante muitos quilómetros. A missão não era fácil e até começou da melhor maneira para o grupo de 3 e depois 5 elementos, abrindo rapidamente um fosso para o pelotão e saindo da vista deste também (o que é uma vantagem muito importante), desencorajando assim a anulação rápida da fuga. O grupo era forte mas não terá feito a gestão de esforço ideal, que era exigível para fazer vingar a escapada. Repito: não era fácil! Todavia, o Durão esteve quase a atingir os seus objectivos e o ZT fez uma excelente subida da Ereira, repetindo as boas indicações dadas há uma semana em S. Tiago dos Velhos.
3. Por falar em boa indicações, não se pode deixar de referir (e repetir) a excelente forma do João. O seu trabalho no pelotão perseguidor foi fundamental, não apenas pelo trabalho, mas também na ajuda à coordenação. E depois ainda teve forças para corresponder com galhardia à dureza da Ereira e mais tarde no Forte de Alqueidão, onde, pelos visto, teve um desempenho que impressionou o Pina. Rendido ao desempenho do João no final da subida, em resposta à minha aceleração e do Freitas, o Relojoeiro (que seguiu a sua roda) não lhe poupou elogios.
4. Mas o João não foi o único em elevadíssimo plano. Para ser realmente justo, todos os que participaram nesta volta mereciam referência. Mas perdoem-me a parcialidade em relação ao pelotão perseguidor: o Carlos esteve ao seu melhor nível: com o coração a 190 no final da Ereira disse que chegou a ver estrelinhas. E o Pintainho irrepreensível, ajudando o grupo e muito bem na Ereira, provando desta vez os seus créditos de trepador. Mas também o Salvador e o Amigo do Pedro: abnegados! E o Samuel… enquanto não se eclipsou algures entre o Carvalhal e Catefica! A sério: espero que não tenha passado mal.
5. Já agora, para eventuais interessados, a minha pulsação média na subida da Ereira foi de 172 bpm, sendo no início baixa (155) e nos últimos dois quilómetros sempre acima das 180, com «pico» às 189. Outro facto relevante: entre a Malveira e o Carvalhal o grupo perseguidor fez a excelente média de 36 km/h.
6. A terminar: segue-se a Etapa do Tour (próxima segunda-feira, dia 10). O trabalho de casa está feito: 10.500 km na temporada (mais de 9000 km desde 1 Janeiro) e as baterias afinadas para conquistar o Izoard, o Lautaret e o Alpe d’Huez. Na fantástica companhia do Miguel e do Nuno, vamos ser três entre 8500 à partida de Gap, para 190 km que prometem ser inesquecíveis.
quinta-feira, junho 29, 2006
Novos «papa-quilómetros» e as consequências
Mas este aumento exponencial do volume de treino tem consequências inevitáveis, algumas a implicarem reflexão:
1ª- Vai haver um aumento inevitável do fosso entre os novos «papa-quilómetros» e os que – repito, por diversos motivos – continuam no regime antigo. A manter-se o desequilíbrio de treino, mesmo que actualmente ainda não seja visível, a médio (quiçá a curto) prazo as dificuldades dos menos rodados não vão ser somente em aguentar os «internacionais» (como agora), mas também os que já treinam tanto como estes.
2ª- Consequência da primeira… consequência: depois vamos ver se serão os raspanetes que os farão parar os novos poderosos! Não foi por acaso que, no rescaldo do último domingo, se falou de grupo de elite sobre o que participou naquela exigente volta e resistiu a andamentos tão selectivos. Ou seja, quem está a perder terreno terá enormíssimas dificuldades, agora e no futuro, em acompanhar o ritmo do pelotão – e não só o que os «internacionais» a espaços impõem. Daqui a algum tempo ainda será necessário impor zonas de andamento livre…
3ª- Esta tem um cariz um pouco mais científico mas serve de alerta para eventuais efeitos contraproducentes do treino intensivo. Ou seja, o aumento do volume e da carga de treino provoca efeitos positivos mais ou menos imediatos, mas implica uma abordagem muito mais criteriosa aos métodos fundamentais da preparação física – treino, descanso e alimentação –, sob pena de a grandes picos de forma sucederem quebras igualmente vertiginosas. Creio que até já existem alguns indícios preocupantes – refiro-me ao afundamento do poderoso Fantasma em S. Tiago dos Velhos. Como bem diz o Durão, o mais difícil não é atingir a boa forma, mas sim mantê-la, principalmente para quem, como o nosso pelotão, tem domingos «competitivos» durante quase todo o ano. E também de mim (ou contra mim) falo!
terça-feira, junho 27, 2006
Dureza, ataque e... polémica!
«Eh pá, o Capitão está roxo!» A afirmação do ZT, no alto da Freixeira, onde ele o Abel nos esperavam, definiu o mal que o Fantasma passou para ali chegar, desde Loures. Primeiro, foi o Durão a impor um passo rijo, constante, na subida de Guerreiros, e depois, eu, a partir da Freixeira até à Venda do Pinheiro. Andamento, de facto, demasiado alto, convenhamos, tendo em conta que eram os primeiros quilómetros (e duros!) e a dificuldade do percurso. Reconheça-se…
Relaxou-se na descida para a Bucelas, mas, mais tarde, a caminho de S. Tiago dos Velhos o ímpeto voltou a disparar. Eis o Durão ao ataque, logo na primeira rampa à saída de Bucelas. O pelotão teve de cerrar fileiras na perseguição, mas rapidamente se fizeram as primeiras baixas: o Fantasma tirou bilhete. E o que à primeira vista parecia uma medida de poupança foi, pelos vistos, a roxidão que lhe desceu às pernas. Fez bem, digo eu!
Analisada a situação à cabeça, não foi difícil perceber que o fugitivo estava com ideias fixas, por isso era aconselhável mantê-lo à distância e não incorrer no erro de recuperar em esticão. Para tal, impunha-se que o ritmo do pelotão fosse elevado e, principalmente, não fraquejasse. O que não se afigurava fácil... Todavia, ainda a meio da subida, o fugitivo já estava controlado. Nessa altura, fiquei satisfeito, acima de tudo, pelo facto de na minha roda ainda se manter um grupo apreciável: João, ZT, Salvador e um outro elemento novo.
A aventura do Durão terminou em S. Tiago dos Velhos, antes da parte mais complicada da subida, a partir de Adoseiros. Assim, mal foi absorvido, passou-me as rédeas. E na aceleração final, segurou-se com firmeza à minha roda. Os perseguidores referidos chegaram ao Lameiro das Antas com pouco mais de 40 segundos de atraso. Excelente!
Depois de esperar e esperar pelo Fantasma – agora já com outras cores! -, retomámos a marcha a caminho do Sobral, descendo à Quinta do Paço. Mas aí a polémica estalou. O Relojoeiro atirou-se ao Durão, culpando-o do castigo infringido ao pelotão (ele que até se juntou apenas na Chamboeira!!!). A partir daí, o Durão amoleceu e com o grupo fustigado fiz as despesas desde Arranhó até Santana da Carnota. Ao todo, 40 km. Valeu a pena, acima de tudo, pelo proveito. O andamento foi moderado, sem momentos de relaxe, e por isso penso que todo o pelotão lucrou. Após a Freiria, de regresso ao Sobral, soltou-se finalmente. A subida para o Forte de Alqueidão não destoou, mas a descida para Bucelas foi a «mata cavalos». O Durão voltava às lides, provavelmente embrutecido pelo raspanete» e impôs um ritmo «assassino» que só o Salvador (em muito boa forma) conseguiu resistir, numa típica prova de eliminação… A velocidade média é elucitativa: 46 km/h. Já agora, a média total da volta também: 29 km/h. Podiam era ter dado uma ajudinha.
Notas de observador:
Elogios à tenacidade dos elementos que completaram a volta (cerca de 115 km e quase 1500 metros de ascendente acumulado), porque as dificuldades começaram cedo, agravaram-se a meio, e a parte final não foi nada fácil. Estiveram que nem aço, principalmente o Fantasma, o referido elemento para mim desconhecido e o João, embora este se tenha adiantado aquando da longa espera no Lameiro das Antas, continuando apenas na companhia do Samuel. Foi pena, porque o João provou estar em grande forma. Como nunca o vi! Acabámos por reencontrar este duo, já na descida do Forte do Alqueidão para Bucelas. Mas como estes, outros, como o Abel e o Salvador, que entraram mais tarde, também acabaram a volta. Em grande!
A subida de S. Tiago dos Velhos foi interessante, apesar de todas as dificuldades por que a maioria dos elementos passou. O ataque do Durão logo no duro primeiro quilómetro e o facto de ter sido «para valer», obrigou a uma perseguição aplicada, na qual devo destacar a excelente prestação dos elementos que se mantiveram firmes na minha roda. E apesar da fuga ter estado quase sempre controlada, havia que evitar fazer a reabsorção em «esticão» e ao mesmo tempo não deixar cair o ritmo. O Durão apercebeu-se rapidamente que não iria longe e para evitar mais desgastes abdicou antes de S. Tiago dos Velhos, passando de imediato à defesa – ou seja, à minha roda. A partir de Adoseiros, a inclinação aumenta e com a fadiga acumulada o grupo desmembrou-se naturalmente. Mas tal não diminui a sua prestação. Bem pelo contrário. Os 9 km entre Bucelas e Lameiro das Antas foram intensos q.b. – e a prová-lo estão os «meus» 168 bpm de média.
Quanto ao episódio que gerou tanta controvérsia, creio que as razões se dividem. Já se disse que o andamento imposto desde o início pelo Durão foi realmente elevado e a passagem pela Freixeira foi mais difícil ainda - embora não tanto pelo ritmo na subida (4.26m é um crono que está dentro da normalidade), mas porque não houve metro de tréguas até aí chegar. E daí até alguns «poderosos» ficarem roxos foi um ápice. Mas o ataque do Durão em S. Tiago dos Velhos não pode ser condenado. Ali é terreno propício. E fez-se ciclismo! Do bom! Os que participaram (tão bem!) no esforço de perseguição têm motivos para estar satisfeitos.
Surpreendeu-me o João. Está em grande forma, a dar o litro e a ler muito bem as incidências da prova. Pena que não tivesse feito o resto do percurso em grupo. Bem precisei da sua ajuda! Serão os treinos a meio da semana com o Durão? E quem é o novo elemento, que desconhecia? Esteve tão bem como o João, juntando a isso o facto de ter integrado sempre o núcleo duro que completou o percurso. Esperemos que seja para continuar?!