terça-feira, outubro 26, 2010

Crónica do Livramento-Óbidos

À partida, era justificado e honesto o receio de que os poucos mais de 100 km de ida e volta, do Livramento a Óbidos, fossem demais para as minhas capacidades, no rescaldo de cerca de um mês sem bicicleta. Nada fazia querer que, no momento mais intenso da jornada ciclista que o camarada Paulo Pais organiza anualmente, acabasse por apanhar o TGV, como alcunhou uma das principais locomotivas da restrita composição de sete carruagens que cumpriu a ligação final, desde o Bombarral, a uma média superior a 37 km/h. Por ter feito parte desse grupo, em total contraponto com o meu actual estado de forma, (re)afirmo o meu enormíssimo espanto.
De qualquer modo, a minha presença nessa elite revestiu-se de casualidade, de oportunismo. Estava no sítio certo, no momento certo para apanhar a extraordinária boleia – ainda que sujeito a grande esforço e pesada dose de sofrimento. Além disso, viajei sempre na qualidade de passageiro, com título de transporte limitado à zona, deitado borda fora, à saída de Torres Vedras, quando às dificuldades do andamento profissional se juntou o relevo mais acidentado.
Daí, até final, à minha conta e risco, acumulei cerca de 4 minutos para o grupo principal, segundo contas dos seus elementos. E muito longe de ter relaxado...
Tudo isto se passou, como referi, no regresso, após o Bombarral, onde diz a tradição, as hostilidades deste evento se abrem e raramente voltam a encerrar. Na primeira parte, para Óbidos, o ritmo do pelotão foi moderado, a rondar a média de 30 km/h, com o trio Freitas, Zé Henrique e Jonas isolado desde muito cedo, ainda antes de Torres, a manter-se assim até ao derradeiro quilómetro antes de Óbidos. E a junção só se deu porque os três, que até ai andaram muito bem, levantaram totalmente o pé.
Às primeiras pedaladas de regresso notou-se a avidez (de alguns) em carregar nos pedais – de fazer a coisa andar. Não imaginava que tanto! Aguardou-se pela saída do Bombarral, e logo que o asfalto melhorou passou-se de nível... Os dois elementos da Carb Boom, Marco Silva e Paulo Lopes, impuseram andamento elevado e o pelotão não demorou a seleccionar-se.
Com o acumular da ascensão para Outeiro da Cabeça sobrava cada vez menos nata. Ao contrário do que se disse, as mudanças de ritmo não foram bruscas, mas sim progressivas, passando do muito alto ao... demasiado alto – e insuportável para grande parte do pelotão. Afinal, a ruptura definitiva estava eminente e poderia prever-se onde ocorreria. Certamente, atrás dos seguintes: os dois Carb Boom, o André e os seus dois vizinhos (com idades bem distintas, do tipo pai e filho) e o Dario. Para precaver a separação dos grupos havia que estar logo atrás destes, muito perto, e aguentar o «tranco».
Assim, quando a coisa apertou, o Freitas saiu para o lado, o Paulo Pais deu passagem, o Runa começou a debater-se com dificuldade e o Jonas quebrou no último momento, na hora H, no derradeiro golpe de pedal, mesmo ao meu lado. Quando chegou a minha vez, mordi-me para agarrar a roda do Dario, porque atrás não restava ninguém...
Bom, a partir daí, foi a correria a alta velocidade, o tal TGV que o Dario baptizou. Restava-me guardar a melhor roda, evitar passar pela frente (que não consegui evitar apenas por uma ocasião, felizmente breve), resistir a eventuais mudanças de ritmo (não sucederam) e aguentar até ao mais perto possível da chegada. Como disse, estava ali deslocado e certamente a prazo.
O último topo da variante de Torres ditou-me a sentença. Nada mais havia a fazer que meter o meu passo e... chegar ao fim. Lá, à frente, continuou-se a andar fortíssimo, mesmo em subidas. Como se a época estivesse ao rubro. Fora de tempo, claro está!
Para a maioria, deu-me a parecer que o aconselhável defeso está às portas. Outros, provavelmente, nem querem ouvir falar disso. Eu, depois da paragem antecipada, enfrento a pré-temporada mais cedo que o habitual. Pois, com muita tranquilidade. O «engano» da cavalgada de domingo foi apenas isso...

2 comentários:

Dario Teixeira disse...

Parabéns Ricardo, mais uma crónica à medida. Notou-se obviamente grandes diferenças nos estados de forma. Eu penso que só eu, o André e os seus amigos é que estamos numa fase de crescendo, pois eu estive mais de 1 mês parado em Agosto e Setembro. De qualquer forma ainda estou longe do pico, para além de no dia do evento estar adoentado. Queria fazer uma ou duas provas de btt em Novembro e em forma e ainda nºao decidi se vou ao Tróia-Sagres. Um grande abraço e boas voltas com o Martinho da Vila (é devagar, é devagar, é devagar devagarinho...)

Anónimo disse...

MANO RICARDO QUERO AGRADEÇER ESTE TRABALHO QUE FIZESTE SOBRE ESTA LOUCA CLASSICA LIVRAMENTO OBIDOS.PARA 2011 ESPERO FAZER SE TUDO CORRER COMO ESTOU A CONTAR ULTIMA SEMANA DE SETEMBRO.GRANDE ABRAÇO DO TEU AMIGO P.PAIS ATE BREVE