quarta-feira, janeiro 05, 2005

Mudem as mentalidades!

Não sei quantos de vós são cicloturistas? Eu sou! Por isso, estou aqui para reclamar mais consideração, porque faço mais de 10.000 km por ano para estar em forma... e não apenas para passear. Primeiro esclarecimento: não gosto de competir, não tenho pretensões a ganhar nada, caso contrário, sabia bem onde me dirigir, e logicamente, também esta conversa esvaziada de sentido. Segundo esclerecimento: o cicloturismo não tem de ser levado à letra. Não precisa confundir-se com turismo de bicicleta - embora também possa sê-lo. O cicloturismo que me refiro é mais abrangente e muito mais... exigente. A todos os níveis. Poderá traduzir-se na prática de ciclismo por todos os seus entusiastas, numa versão ciclista em cada um de nós, verdadeiros amadores. Pelos que encaram o facto de andar de bicicleta como a projecção do ciclista que há dentro de cada um, muito além do quão saudável pode ser apenas o facto de realizar uma actividade física. Por isso, os ciclistas de trazer por casa, os melhores da nossa rua, querem acabar com o marasmo que é a organização do cicloturismo em Portugal. Refiro-me aos denominados passeios promovidos por grupos de carolas, empresas, clubes, autarquias, etc, a maioria sob a égide da respectiva federação - sem desprimor para esta -, que, de modo algum, correspondem às expectativas dos que gostam verdadeiramente da bicicleta, e muito menos do que praticam ciclismo sub-subamador. A maior parte desses passeios - e digo-o por experiência própria - são realmente um passeio e não um desafio, estímulo ou forma de sentir o ciclismo em toda a sua dimensão. Enorme. O ciclismo, mesmo o que pratiquemos apenas aos fins-de-semana ou uma vez por mês, não se compadece com a natureza de tais passeios, que muitos servem apenas para justificar almoçaradas e bebezaimas (sem qualquer depreciação para os participantes, provavelmente, também desejosos de melhor). Os exemplos espanhóis e franceses - que conheço bem - deveriam ser seguidos pelos nossos organizadores - os actuais ou os que pretendem candidatar-se. Chega de carros à frente dos ciclistas, a limitar a velocidade a 20 km/h... nas descidas! Isso não é cicloturismo. E como se não bastasse, quantas vezes lhes dão música...pimba em estridentes altifalantes! Não somos nenhum corso alegórico! Certamente vou ao encontro dos anseios de muitos milhares de cicloturistas, que tal como eu, encaram a prática do ciclismo, digamos, um pouco mais a sério. Com algum sentido. Porque este não tem nenhum. Aqueles exemplos que apontei mostram a realidade por detrás da tacanhez da mentalidade portuguesa, que não revela qualquer ambição de mudança. Porque não há quem se atreva a ser pioneiro. Aquelas são referências a seguir em termos organizativos, de adesão massiva de cicloturistas, verdadeira propaganda à modalidade e à própria bicicleta. Seguramente, este pensamente é partilhado por muitos companheiros de pedalada, muitos deles já tiveram de «imigrar» para poder sentir o verdadeiro prazer de participar numa clássica de cicloturismo em Espanha ou França - como os Lagos de Covadonga, a Pedro Delgado ou a Quebrantahuesos: só para referir algumas que se realizam todos os anos aqui ao lado, nos nossos vizinhos, onde o fenómeno do cicloturismo mobiliza muitos milhares de aficionados, de todas as idades e dos dois sexos. Ninguém se importa chegar em último ou o tempo que demora da partida até cruzar a meta - o mais importante é participar, dar o melhor e, quiçá, superar-se fisica e mentalmente. Ou seja, ser um verdadeiro ciclista. As subidas e as montanhas - na verdade, onde reside a génese do ciclismo -, quantas mais melhor! Foi para ultrapassá-las com distinção que se perderam tantas e tantas horas de treino, muitas vezes à custa de algumas incompatibilidades familiares, de muitas dores nas pernas. No final, estará a melhor recompensa. Ter terminado a prova - ter sido um verdadeiro campeão de si mesmo! Quem não gostará de se sentir como um ciclista profissional, passar onde eles passam, e o que eles passam! Sentir um pouco que seja do que eles sentem - por só assim é possível saber o que é, realmente, o ciclismo.E por que vicia tanto!
Hoje fico por aqui. Mas certamente voltarei ao assunto, porque é uma das minhas batalhas pessoais e... por agora, uma das minhas frustrações de cicloturista. Temos em Portugal tantas montanhas boas para subir, tantas estradas magníficas para percorrer e conhecer. Senhores, metam mãos à obra! Ousem mudar as mentalidades! A adesão iria ser total. E o êxito, garantido...

4 comentários:

Nuno Garcia disse...

Ricardo, excelente ideia este blog, talvez possa servir de semente para uma nova mentalidade e para partilha de experiências ciclistícas. Estou totalmente de acordo com o que escreveste, relativamente ao nosso cicloturismo. Tal como tu, já por diversa vezes senti a grande satisfação de terminar um evento como a etapa do tour, Pedro Delgado ou a Quebrantahuesos e o sentimento de realizar um objectivo pessoal. Não sou obviamente indiferente a todo o convívio do antes e pós evento, com a "pasta party", as conversas sobre ciclismo e bicicletas. Hoje para mim os desafios são estes eventos, mas não pensem que foi sempre assim. Há 5 anos atrás o meu desafio era percorrer um trajecto de 10 km em que o ponto de máxima dificuldade era a subida final para minha casa. A sensação de realização era, naquela altura, igualmente boa, no entanto, a bicicleta é altamente viciante e cria dependencia. Hoje para obter uma satisfação semelhante tenho de percorrer mais de 10 vezes esta distância e no meio ter montanhas míticas:-)
O tempo hoje não me permite continuar a escrita, talvez porque fui treinar e aliviar o stress e ainda tenha de fazer uns trabalhos para amanhã. A conciliação da bicicleta com o trabalho e a familia representa um desafio maior que o Quebrantahuesos:-), mas prometo efectuar mais comentários brevemente.

renas disse...

O autor deste texto esquece realidade importante no nosso país: ausência quase total de pistas para ciclistas. O argumento, em Lisboa por exemplo, é que não é uma cidade plana... e noutras localidades. Excepto Aveiro, pouco é feito para incentivar o uso da bicicleta como meio de transporte.

Anónimo disse...

Amigo cicloturista, muitos pensam assim.Todos vivem resiguenados com aquela maxima da solariadade para com quem pedala em dificuldades.então e a solariadade desses para com aqueles que têm o cuidado de estar em forma?ou numa forma minima?será que temos que ser solidarios para com aqueles que tiram a bike da garagem porque á um passeio lá na terra?que nunca andam de bicicleta?ou que nesse dia trocaram o copo da cerveja pela bicicleta?
Na minha opinião está na altura de classificar os passeios ,e isso passa pela federação de cicloturismo.É necessário destinguir um simples passeio em que o unico objectivo é o convivio e o ajuntamento do maior nºpossivel de ciclistas,e os passeios de superação pessoal com kms e dificuldades mais acrescidas.

Anónimo disse...

realmente existem muitas formas de sentir, ver e praticar o cicloturismo , tambem pode ser uma forma de ir dando de comer e beber a um grupo restrito de pessoas para na altura certa votarem neste ou naquele partido!