
A Clássica de Évora tem um percurso praticamente plano que atravessa o baixo Ribatejo até ao alto Alentejo, é talhado à medida de roladores fortes e possantes e a distância longa (140 km) não permite contemplações aos menos bem preparados.O perfil altimétrico do percurso é bastante curioso. Ao contrário do que se poderia supor, vai subindo gradualmente de Vila Franca a Évora, com alguns picos mais acentuados antes e depois de Montemor-o-Novo, já nos últimos 30 km, tornando o final da tirada bem mais selectivo, tanto mais que, nessa altura, o cansaço se vai acumulando. Depois, como diz a velha máxima ciclista, «as dificuldades também se ditam pelo andamento» e tradicionalmente há que contar com um adversário adicional: o vento.
Eis o resumo da edição de 2007, retirando alguns excertos da crónica publicada nessa altura:
No final da Recta do Cabo o Fantasma parou para «tirar peso» e o Freitas lançou ataque inesperado. A acção surpreendeu por ter sido tão madrugadora e teve o ensejo fracturar o pelotão, isolando um grupo de cinco unidades, que contava, entre outros, com o Salvador e o Isidoro. Objectivo óbvio de quem tomou a iniciativa (o Freitas) era óbvio: causar desgaste lá atrás. O andamento dos fugitivos começou por ser bastante bom, permitindo-lhes ganhar vantagem de algumas centenas de metros, mas o pelotão não tardou a reagir e graças ao trabalho de três a quatro unidades a fuga foi anulada após 6-7 km, ainda muito antes do cruzamento de Pegões.
A espaços houve pequenos grupos que se isolaram, como o que se formou após o cruzamento de Pegões, liderado pelo Salvador (um dos mais activos, como sempre), cuja aventura terminou à passagem por Vendas Novas.
Eis o local habitual da primeira grande selecção. Após a subida, sob passo rijo do Freitas (embora menos que se previa pela boa forma que vinha evidenciando naquela altura da temporada) restavam apenas cinco elementos na frente: Freitas, Jony, Nuno Garcia, eu e o Fantasma, este cumprindo, desde já, grande parte do que seria o seu objectivo: passar Montemor no grupo da frente.
No primeiro topo à saída de Montemor, depois de o Freitas ter aliviado o passo, fui eu a acelerar com ímpeto, restringindo a liderança a apenas quatro. No entanto, o vento e a falta de colaboração no quarteto refrearam o andamento, possibilitando ao que restava do pelotão reentrar após alguns quilómetros de intensa perseguição, mas ainda a cerca de 15 km de Évora. Ou seja, ainda muito cedo!
Depois de mais um ataque, e outro, e da tomada de iniciativa definitiva da minha parte, a selecção voltou a fazer-se, mas agora com o Fantasma, o João e o Isidoro dando mostras de estóica resistência. Todavia, o esforço, o vento e o topo mais longo daquele último sector «vitimara» os dois últimos e até o Nuno Garcia, mantendo-se ainda o Fantasma – que acabou por «morrer na praia», precisamente no último topo antes da descida final para Évora (derradeiros 5 km). Obra do Freitas, com «killer instinct» de se lhe tirar o chapéu. Apercebendo-se das dificuldades do Fantasma na cauda do grupo tomou a imediatamente a iniciativa à cabeça, forçando o andamento ao limite. O elástico esticou e partiu definitivamente.
A partir daí, o trio da frente «picou» em direcção ao final a mais de 45 km/h. Uma vez isolado, para o perseguidor tornava-se impossível a tarefa de recuperar. E em menos de 5 km perdeu, sem surpresa, cerca de 3 minutos. Curiosamente, os mesmos que em 2006... mas desde Montemor!O Jony acabou por ser mais forte no sprint final, superiorizando-se com grande classe ao Freitas, que perdia a sua longa hegemonia neste tipo de chegadas.
Não muito depois do «derrotado» Fantasma, chegaram o João e o Isidoro, e logo a seguir o Zé, todos eles senhores de excelentes prestações. O pelotão chegou a conta-gotas...
Como será em 2008?