A Ciclomix dominou a Clássica de Fátima 2009, conquistando as primeiras quatro posições à chegada àquela cidade. Como dizem os brasileiros, foi «barba, cabelo e unhas...»
Numa jornada marcada pela chuva, na ausência da GNP, do camarada Paulo Pais, a hegemonia do esquadrão amarelo pouca oposição teve, principalmente da Pina Bike, que se vergou perante a sua superioridade, acima de tudo colectiva. No seguimento do controlo quase absoluto das operações ao longo do percurso, o quarteto composto pelo Hugo Maçã, André («contratação» de última hora, surpreendente!), Filipe Arraiolos e Rui impôs-se, por autêntico KO técnico, a todos os demais, permitindo que celebrassem, de mãos dadas, no final, à chegada à rotunda dos Peregrinos, um triunfo bem preparado e inteiramente merecido.
A história desta edição da clássica-rainha do nosso calendário escreveu-se, pois, em tons de amarelo, as cores da Ciclomix. Esta equipa apresentou-se mais reforçada que nunca – além do André, o Rui – e com a maioria dos seus elementos em grande forma. De tal modo, que entregou quase exclusivamente ao Hugo «Garfield» todas as despesas do controlo do pelotão – e foi o que bastou! Justificando dotes de excelente rolador e o seu êxito recente na Clássica de Santa Cruz, impôs andamento forte à frente do pelotão, desde a partida de Loures ao início subida final, na Batalha, entregando a contenda em bandeja dourada aos seus companheiros. Entenda-se «andamento forte», o contributo quase exclusivo para a média final pouco abaixo dos 33 km/h.
A inesgotável disponibilidade do Hugo permitiu aos seus companheiros mais apontados para discussão final passarem descansados todo o trajecto até à Batalha. E a ele próprio (Hugo), a dupla satisfação de realizado um desempenho extraordinário, ao alcance de poucos os que participaram e de ter contribuído decisivamente (sublinho, decisivamente!) para o êxito individual e colectivo da sua equipa. Parabéns!
Mas não foi apenas físico, mas também estratégico, o mérito da Ciclomix. Eis um exemplo: ainda da autoria do Hugo Garfield, autêntico «patrão» desta Clássica: na aproximação à subida do Alto da Serra (Rio Maior, km 81) teve o ensejo de forçar o ritmo para se destacar do grupo principal e assim passar aquela dificuldade intermédia com avanço suficiente para gerir, em vantagem, o aumento do «passo» pelos favoritos do Pina Bike, e assim não fazer perigar a sua presença à frente – logo, a continuação do seu trabalho.. Fê-lo, então, com a ajuda do colega Salu (muito bem visto...) e mesmo levando a «má companhia» do Farinha, do Salvador e do Evaristo – três Pinas.
Deste modo, quando eu, durante quase toda a subida, e o Freitas, na parte final, impusemos ritmo de corte no pelotão, só o Farinha, o Salu e o Salvador foram ultrapassados, ainda assim reentrando pouco tempo depois do final da subida – já que não houve continuidade no ritmo do sexteto que se destacou (eu e o Freitas e já os quatro Ciclomix que se consagraram no final). De resto, não demorou muito mais para também o pelotão se reagrupar.
O Hugo e o Evaristo ainda rolaram alguns quilómetros isolados, mas foram reabsorvidos. E o primeiro não demorou a regressar ao seu trabalho. Nas grandes rectas do IC2 beneficiou de o vento estar (nada habitualmente) a favor, para «meter» andamento desencorajador de quaisquer iniciativas desestabilizadoras. Ou seja, Sem fraquejar sequer nos topos impediu que houvesse reacções hostis.
Nesta fase, com cerca de 90 km percorridos, deu-se o único incidente: queda do Pina, aparatosa e a fazer temer piores consequências, porque se rodava a mais de 45 km/h!... Causa: o embate numa pinha caída, felizmente sem provocar mais mazelas do que algumas escoriações. No entanto, combalido, o nosso «relojoeiro» teve de abandonar.
Depois da paragem, a ligação à Batalha fez-se ainda a bom ritmo e com o mesmo figurino: Ciclomix a controlar as operações, sempre com o inevitável Hugo a liderar. Na chegada à Batalha havia que tentar alterar o estado das coisas. Face ao «descanso» se tinha verificado até aí, não havia tempo a perder em jogar as cartadas que a nós, Pina Bike, restavam: atacar nas subidas. Forte e o mais cedo possível.
Logo que a estrada empinou, para a primeira ascensão, a mais suave (2,3 km a 5%), passei a impor o ritmo. Elevado, mas não máximo, por ser ainda... cedo! Por azar, pela primeira vez durante toda a tirada o vento soprava frontal. Estava tudo... contra! Do pelotão seleccionou-se de imediato o sexteto que se formara no Alto da Serra, com o Freitas, tal como aí, a passar na frente nos metros finais para me ajudar e não deixar cair o ritmo. Os Ciclomix mantiveram-se incólumes. Nenhuma baixa a registar. Mas sem surpresa, nesta altura...
A descida, ao contrário do que deveria a bem das nossas pretensões (ou das minhas, como se verificou rapidamente...) foi tranquila, permitindo recuperar, aliviar as pernas e baixar o ritmo cardíaco bastante. Com tanta concorrência, eu não poderia arriscar continuar a forçar na descida, logo entrando a fase dura e decisiva, a segunda subida. O Freitas também o fez, e tinhas razões ainda mais fortes...
Perante isto, em maior número, os Ciclomix não tardaram a passar o ataque. Ainda na descida, o Filipe acelerou e entrou ligeiramente destacado na subida final (2,5 km a 6,5%), obrigando-me a perseguir. O Freitas aconselhou-me a controlar. Mas tal não seria a melhor opção, pois a cada metro que passava esgotavam-se as possibilidades de tentar obter alguma vantagem em subida. Fechei o espaço, e astutamente o André passou logo ao ataque, abrindo alguns metros e voltando a obrigar-me a perseguir. Desta feita, a movimentação causou estragos, não só nos restantes Ciclomix, mas também, e ainda mais profundos, no meu companheiro, Freitas – que ficou definitivamente fora da discussão.
Perante este cenário, ficava quase sentenciada a contenda. Restava-me forçar ao máximo. Depois de me juntar ao André, procurei manter o andamento elevado para aumentar a distância para os outros Ciclomix, mas tive de lidar ainda com constantes ataques do meu parceiro de fuga, cujo único sucesso foi (afinal, como pretendia!) desgastar-me. Por isso, no final da subida, a 7,5 km de Fátima, não deveríamos ter mais de 20 segundos de vantagem sobre o trio perseguidor, sabendo, de antemão, que não teria cooperação – pelo menos, efectiva para tentarmos chegar isolados. Ele ainda passou pela frente, quando instigado, mas limitou-se a cumprir «dever moral», não se empenhando a fundo. Neste caso, compreensível.
Assim, a cerca de 3 km de Fátima fomos alcançados... e imediatamente ficou gorado o meu objectivo. A partir daí, os Ciclomix atacaram à vez, ao que tentei responder sempre com a possível prontidão – e sem nunca abdicar, rejeitando limitar-me a gerir o desgaste e a tentar... o segundo lugar. Ao terceiro ou quarto ataque, o Filipe saiu melhor que antes, abrindo mais espaço do que seria conveniente para mim. Como demorei mais tempo a fechar, inviabilizou-me a derradeira hipótese: contra-atacar. Foi isso mesmo que constatei quando estava novamente a escassos metros de o alcançar, ao sentir as pernas bambas metendo-me em crenques. O local até era bom: a ligeira lomba do viaduto da auto-estrada, a menos de 500 metros do final. Mas a nem isso teria veleidades, pois imediatamente antes de encostar na roda do Filipe, os Ciclomix passaram de esticão em bloco. O Rui e o André à frente, celebrando de mãos dadas; o Hugo Maçã logo a seguir, depois o Filipe e eu a fechar o quinteto. Fui a KO – mas sem atirar a toalha ao chão!
Menção honrosa também ao nosso grupo, Pina Bike, que esteve muitíssimo bem, demonstrando estar ao nível de uma tirada exigente como a de Fátima. Não temos a capacidade colectiva para num percurso com estas características contrariar (no bom sentido competitivo...) formações mais homogéneas e bem organizadas, como a que a Ciclomix apresentou, mas a ideia com que fiquei após o final da tirada, em confraternização, era a de missão cumprida (principalmente, de cada um dos Pina Bikes, pelo seu bom desempenho individual). Já é um bom princípio. Penso, inclusive, que se exorcizaram alguns fantasmas, ajudando a criar alicerces para, no futuro próximo, ultrapassar o clima de desconfiança (será o termo mais condizente, mesmo entre os mais brandos) que impera no seio do grupo. Não para «ganharmos» as ditas clássicas, mas acima de tudo, e mais importante que isso, para recuperarmos a sã convivência e a satisfação de nos reunirmos em torno do ciclismo, a todos os domingos.