Montejunto é sempre assim: ansiedade no início, sofrimento durante e êxtase no final. Foi certamente assim que se sentiram os que, no domingo, atingiram o cume da serra de 660 metros, a Varanda do Oeste. A ascensão por Pragança, a vertente mais curta, mas a mais constante e, por isso, a que tem a inclinação média mais elevada: 7,5% (exceptuando a do terrível Avenal) faz-se após aproximação em falso plano ascendente, a preparar o choque que é entrada naquela localidade, o duro início da subida, que lança os 5,5 km seguintes em que são escassos os momentos de descanso.
Este foi o ponto mais alto (literalmente!) da volta deste fim-de-semana, que teve noutros de inegável relevância também a contribuição para uma enorme jornada de ciclismo. Desde logo, o numeroso pelotão, nivelado por cima e pejado de figuras. A prova dessa elevada bitola foi a subida para o Forte de Alqueidão, com andamento de excepção desde a Bemposta para tempo abaixo dos 23 minutos: o meu «personal best». Corrijo, o melhor em que estive presente, pois a minha participação foi... nula! A proeza tem autor: o Renato Hernandez, que, embora a espaços coadjuvado, pautou sempre o andamento. E todos sabem como é difícil – até na roda – fazer os mais de 11 km sempre no prego. O Rui Torpes, que foi um dos poucos que se assomou à ilharga do Renato, reconheceu que a diferença de estar à frente e no conforto do pelotão era de 20 pulsações. Bom, por isso é que, apesar do ritmo elevado, passei mais ou menos incólume, com a pulsação abaixo do limiar anaeróbio (média de 162). Grande diferença em relação à semana transacta (eis os benefícios de se fazer qualquer coisa durante a semana). Além disso, a demonstrar o nível médio elevado do grupo, o facto de este se apresentar compacto à chegada ao Alqueidão.
Tempo no alto: 22m53s, menos 33 segundos que o anterior melhor e nova marca a bater.
A descida do Sobral para a Merceana foi tranquila, apenas polvilhada de algumas acelerações do Jony, que, quando lhe apetecia, destacava-se perante estranha permissividade do grande grupo. Ou seja, depois do Alqueidão, quem se daria ao trabalho de substituir o Hernandez nessa tarefa? Como ele não reagiu, relaxou até, todos aceitaram a sua atitude, como se de um «chefe» se tratasse.
Todavia, do Jony, naquela altura, eram apenas ameaças. Porque depois de se acumular mais desgastes no Freixial do Meio e na Atalaia, na descida de Vila Verde dos Francos para o Vilar, aproveitou um adiantamento do Freitas para atacar, agora... a sério. No pelotão, no mesmo tipo de terreno, a mesma estranha parcimónia. E provavelmente o mesmo pensamento anterior: «se o Renato não se mexe...». O grupo ainda avistou a junção do duo à passagem pelo Vilar, mas num ápice esfumou-se.
Até à subida de Martim Joanes foi em ritmo de passeio, interrompido, aí, por surpreendente iniciativa do Carlos Cunha, que levou o grupo a alcançar «um» duo, mas não o original: o Xico Aniceto substituía o Jony, que partira em solitário.
No momento da junção, outro imprevisto: o pelotão «encostou» e manteve-se na roda do duo. Estranho! Estaria a confundir o Xico com o Jony? Improvável! Ninguém queria assumir a perseguição, com Montejunto ali tão perto. E foi no ritmo calmo, pausado, que estes levavam que se cumpriu a ligação a Pragança, desde logo com a convicção que alcançar o fugitivo seria missão mais que improvável.
Entrada em Pragança e a estrada apontada ao céu. O Freitas movimentou-se mas logo abdicou. Passou a localidade e o ligeiro descanso, para logo voltar a empinar. O grupo da frente continha-se, e a primeira aceleração veio do... improvável Pedro. As respostas de alguns, embora progressivas, quebraram a unidade, destacando um quarteto: Pedro, Luís (TNT), Torpes e André. Vinte metros atrás: eu, Renato e Carlos Cunha. Mais atrás, o Carlos Gomes e o Mário.
Abordagem à famosa rampa dos 15% e mais uma surpresa! O Jony logo ali à frente, em ritmo de... paragem. E parou mesmo. Entretanto, na frente o Luís e o Pedro descaiam e eram absorvidos por nós. O nosso grupo, agora quinteto, o Renato passa mal nos metros finais do primeiro segmento da rampa, antes do pequeno descanso, para o segundo, mais curto. E tal como o Pedro e definitivamente o Luís, perdem alguns metros para mim e para o Cunha – e juntos enfrentamos a ligação ao quartel e à fase final da subida. Nesta, o Cunha ganha alento e eu, para não perder a sua roda, «passei ao lado» do recomendável descanso. Quando o terreno se elevou novamente (estávamos aos mesmos 20 metros do Torpes e do André) senti as pernas a vacilarem, a hipotecar o resto da subida. Esvaziava-se o gás para uma eventual aceleração final, restava-me ligar o «cruise control».
Em consequência, tive de largar o Cunha e fui engodo aos perseguidores. Traiçoeiro, no caso do Pedro, que se esforçou demasiado para chegar à minha roda e cedeu abruptamente. Mas encorajador para o Renato, que vinha em crescendo. Tinha-o já na minha roda à entrada dos 300 metros finais, enquanto alcançava o Cunha (agora em nítida perda) e não demorou muito a retemperar forças – também porque se fazia tarde. Ultrapassou-me, levando-me a procurar a sua roda, que segurei apenas por instantes. Nos derradeiros 100 metros, limitei-me a não perder muito e aproveitar o estímulo que foi mais uma das suas demonstrações de força.
O meu tempo foi de 21m48s (médias de 15,5 km/h e 182 de pulso). Já fiz mais depressa (menos 42 s) na mesma volta em Agosto de 2008, numa subida em que persegui, à morte, o indomável Hélder Calado até ao quartel. Foram 4 km que não se esquecem! Quando o alcancei, olhou-me e disse: «não fazia sentido ires aí atrás a sofrer...». Nesse momento, a montanha fez-se azul, de muito sofrimento e, vá lá, um niquinho de... RAIVA! Até ao alto, só se não pudesse. E não pude... Logo nessa altura tinha o mundo de mostrar como é ingrato!!
Resta dizer que, na frente, o duo Torpes/André (pareceu) que não se desfez, apesar de várias tentativas do primeiro. E que quase todos os participantes alcançaram, triunfalmente, o cume da serra.No longo regresso a Loures, os protagonistas mudaram: ainda que o Jony continuasse a mostrar serviço no seu terreno predilecto, surgiram o Carlos Gomes, o Alexandre e outros a encabeçar o pelotão a grande velocidade, culminando no tradicional sprint de Vila Franca, disputado metro a metro pelo Cunha e o Jony. Finalmente, na subida da cervejeira, juntei-me ao Torpes e isolámo-nos até Vialonga, após o camarada Alex me ter levado em bandeja de ouro.